As realidades e as limitações do nosso tempo

Por M. Correia Fernandes

É bom regressar ao passado, que é o antelóquio do futuro, para o qual há muitas lições a aprender.

No longínquo ano de 1974, agora aproximado pelo cinquentenário dos acontecimentos de 25 de abril, o Bispo brasileiro de Olinda e Recife, D. Hélder Câmara, recebeu um “prémio paralelo” ao Nobel da Paz (para que tinha sido repetidamente apontado como candidato, mas nunca recebeu). Este “prémio  paralelo” foi-lhe outorgado pelo Conselho das Igrejas Luteranas da Noruega e da Suécia em reconhecimento pela ação do bispo em favor da paz na sociedade.

Havia, guerras, hoje há guerras e muitas houve entretanto. Esses fenómenos da insensatez humana procedem da ambição do domínio, do poder e da riqueza. Numa conferência proferida em Manchester, o Bispo apontou os tradicionais sete pecados aplicados ao “nosso tempo”, que enumerou: o racismo, o colonialismo, a guerra, o paternalismo, o fariseísmo, a evasão, o medo.  Terminava com a proposta de “uma tarefa positiva”, com claras incidências nos dias de hoje: criar um mundo multirracial, onde as várias raças se reconhecem mutuamente e se aceitem como irmãos e como colaboradores no crecimento humano. Propunha, face ao colonialismo, os projetos de um desenvolvimento equitativo de toda a humanidade; a superação da guerra deveria vir pelo reconhecimento dos direitos, sobretudo do que considerava mais importante de todos, a “consciencialização”, a tomada da consciência da dignidade humana. Propunha depois, como modelo de todo o comportamento humano, a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo, mesmo tendo em conta que a nossa debilidade desfigurou a sua mensagem.

Importa verificar a pertinência e atualidade desta visão dos males do tempo. A superação do racismo, hoje em dia tema muito evidenciado, parece ter-se tornado assunto de inquietação geral mas muitas vezes surge como outra forma de racismo, que é o da acusação universal e da transformação em racismo de muitas atividades sociais; o conceito de colonialismo adquiriu contornos mais modernos e por isso mais perigosos, de apoio a movimentos ou grupos de intervenção junto dos países para os quais se tornavam necessários caminhos de cooperação e desenvolvimento económico, industrial e de utilização das matérias primas em sentido do desenvolvimento. Por sua vez a superação do conceito de paternalismo envolve não apenas a ajuda social, mas a alteração das estruturas que permitam a participação afetivas das populações. O que D. Hélder chama “fariseísmo”, termo demasiado eclesiástico, traduz uma realidade que se afirma no desrespeito dos direitos humanos, no uso individualista da liberdade em função dos benefícios a obter, o esquecimento e desrespeito pela inteligência, pela iniciativa, pela criatividade e pela originalidade, sob a pressão ou domínio das estruturas económicas ou partidárias.

Nos nossos dias este quadro poderá ser acrescentado com novos pecados sociais que apoquentam a sociedade de hoje. O primeiro é a ausência ou esquecimento de projetos humanistas, civilizacionais e marcados por espírito democrático, nos processos que deveriam servir da base à distribuição de riqueza e de ajudas internacionais, como aquelas que a Comissão Europeia promove nos seus planos, em que devia imperar um sentido de promoção dos países e das populações mais necessitadas ou com maiores carências, em ordem a uma progressiva aproximação das condições sociais das regiões menos desenvolvidas. A repartição de tais ajudas nem sempre aparece como forma de promoção, mas mais como forma de repartição.

Outra dimensão central deverá ser a do desenvolvimento entre as nações e as comunidades de um verdadeiro “estado social”, que conduza à promoção de condições de crescimento económico em que se possam autopromover as populações menos desenvolvidas.

O falado pecado da corrupção, fenómeno que conduz mais as mensagens das redes sociais do que os processos da sua superação, surge não como pecado, mas como fenómeno mediático.

E falta ainda uma reflexão de fundo sobre a chamada inteligência artificial. Correm medos e sombras sobre as suas potencialidades e os seus perigos. O problema essencial é o da dimensão ética no uso das suas potencialidades. Mas este é um problema que se levanta para o conjunto das atividades humanas. Toda a ação humana deve ser conduzida pelos caminhos da razão e da ética, sem a qual nada tem verdadeiro sentido da pessoa e da humanidade.

Haveria que lembrar também a questão da crise da democracia, de que o Papa Francisco falou como “arte do bem comum, que nada mais é do que um nome diferente para o que chamamos de política”, lembrando que não nos podemos contentar com uma fé marginal ou privada, mas que importa insistir em propostas de justiça e de paz no debate público.

Na linguagem política habitual as questões de justiça e paz não são as mais relevantes ou são esquecidas. Há caminhos de linguagem que se tornam caminhos de comportamentos.