Liturgia – Padrinhos: estação terminal?

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Desde que, em 2014, o Arcebispo de Reggio Calabria suspendeu na sua diocese o ofício dos padrinhos e madrinhas de Batismo e Crisma, com o objetivo de eliminar qualquer suspeita de ligação da prática sacramental com associações mafiosas, foram numerosos os bispos italianos a suspender, de forma temporária, a prática tradicional de dar padrinhos e/ou madrinhas aos batizandos e crismandos, nos termos do Direito Canónico. Mais recentemente, porém, com um decreto de 1 de julho de 2023, o bispo de Sulmona-Valva (da província eclesiástica de Aquila na região dos Abruzos, Itália central), aboliu na sua diocese esse ofício por tempo indeterminado.

Todos estes decretos episcopais partem do pressuposto de que, segundo a letra do cân. 872 do CIC, não é obrigatório haver padrinhos de batismo: «Dê-se, quanto possível, ao batizando um padrinho». Ora, parece que nas atuais circunstâncias sócio pastorais, a possibilidade desejada pelo legislador é cada vez menos frequente, tornando-se até excecional. De facto, há uma grande discrepância entre o perfil dos padrinhos delineado nas normas canónicas (CIC, cân. 872-874; 892-893), nos preliminares dos livros litúrgicos e no Catecismo da Igreja Católica (n. 1255; 1311) e os candidatos apresentados para tal ofício, muitas vezes afastados da vida cristã e da prática sacramental, escolhidos na base de critérios meramente afetivos, ou de prestígio social, ou da expectativa de vantagens materiais (nem sempre concretizadas), sem qualquer propósito de acompanhar e orientar os afilhados no progresso de uma vida cristã que eles próprios não parece quererem para si. De facto, terminada «a cerimónia» e a boda anexa, a maioria de tais padrinhos desaparece da vida dos afilhados com os quais não chega a estabelecer um mínimo de convivência.

As reflexões do nº 70 do Documento da Conferência Episcopal Italiana Incontriamo Gesù, Orientamenti per l’annuncio e la catechesi in Italia (29 de junho de 2014) são frequentemente referidas. Sendo os pais os primeiros educadores da fé dos seus filhos, «os padrinhos e madrinhas têm a responsabilidade de colaborar com eles para acompanhar as crianças e os jovens que lhes são confiados». Por isso tem de haver muito cuidado na sua escolha e as comunidades devem investir em percursos válidos de preparação para pais e padrinhos. «A este propósito está-se bem consciente das dificuldades emergentes da concreta situação pastoral, por vezes inexoravelmente tentada a ver no pedido da presença dos padrinhos uma espécie de obrigação formal ou de um costume social em que é bem pouco visível a dimensão da fé». Aprecia-se o exemplo de comunidades paroquiais que oferecem às famílias a possibilidade de escolher padrinhos e madrinhas entre catequistas e outros agentes da pastoral empenhados na paróquia. E pede-se às Conferências Episcopais regionais que avaliem a oportunidade pastoral de acolher – apenas como testemunhas do rito sacramental – as pessoas indicadas pela família, sem os requisitos prescritos, mas que possam oferecer proximidade, afeto e apoio educativo.

É questionável a validade de uma legislação particular em patente ou aparente discrepância com o Direito comum de toda a Igreja católica. Acabar com os padrinhos pelo facto de muitos não serem idóneos parece mais uma fuga ao problema pastoral do que uma solução. Ninguém pensa em desistir do sacramento do Matrimónio pelo facto de haver numerosos divórcios  e de muitos homens e mulheres, apesar de batizados, optarem pela convivência fora do sacramento do Matrimónio… E que dizer do Sacramento da Penitência, que padece de tão grande desafeição, e em que por vezes não se sabe quando há um verdadeiro penitente e autêntica penitência… Passar o apagador sobre o quadro onde está escrito o enunciado de um problema pode significar apenas desistir de o resolver.

Este é o tempo de evangelizar com paciência. De apostar noutras figuras ministeriais que possam, em parte, desempenhar o múnus que a Tradição confiou aos padrinhos: diáconos, catequistas, pessoas de referência da comunidade, avós, «testemunhas» com diversidade de testemunhos… Também pode ser conveniente redimensionar o problema para não confundir a árvore com a floreste: a questão dos padrinhos está longe de ser o grande problema da Iniciação cristã no nosso tempo e convém não perder a perspetiva do conjunto! O Espírito Santo guiar-nos-á no caminho da harmonia, acolhendo as pessoas com as suas diferenças, convergindo na verdade e na caridade.