Da história da música para a liturgia: “O sacrum convivium”

Foto: João Lopes Cardoso

Por Bruno Ferreira*

Tal como o Ave verum de que tratámos nas rúbricas anteriores, também o texto de O sacrum convivium data do final da Idade Média, e também aqui há uma atribuição augusta, incerta mas plausível, neste caso referente a São Tomás de Aquino.

Foi adotado como antífona do Magnificat para as Vésperas da solenidade litúrgica de Corpus Christi e, como no caso do Ave verum, também aqui o mistério eucarístico é posto em correlação com o mistério pascal e o destino último do ser humano. A “santa ceia” em que somos alimentados por Cristo é, de facto, o memorial da sua Paixão: nela, “a mente enche-se de Graça” e é-nos dado o “penhor” da glória futura.

Mais uma vez, de modo semelhante ao Ave verum, uma grande riqueza de verdades teológicas é condensada em algumas expressões sucintas, expressas, entre outras coisas, numa linguagem refinada e preciosa. São inúmeras as versões musicais deste texto, e apresentarei brevemente algumas das mais significativas, compostas exclusivamente no século XVI (notando, no entanto, que, por razões de espaço, não posso deter-me nas igualmente importantes de Arcadelt, Jacquet de Mantua, Marenzio, Lasso, Gesualdo, Morales, Guerrero, Viadana, Hassler, Charpentier, Pergolesi, Liszt, Messiaen… para citar apenas algumas).

 

Latim:

 

O sacrum convivium!

in quo Christus sumitur:

recolitur memoria passionis eius:

mens impletur gratia:

et futurae gloriae nobis

 pignus datur.

Alleluia.

.

 

 

 

Tradução portuguesa:

 

    Ó sagrado banquete!

    em que se recebe Cristo,

    e se comemora a sua Paixão,

    em que a alma se enche de graça,

    e nos é dado o penhor futura glória.

    Aleluia.

Versão de Andrea Gabrieli

Andrea Gabrieli (1533-1585) foi um dos fundadores da escola musical veneziana ligada à Basílica de São Marco. Juntamente com o seu sobrinho Giovanni (1557-1612), contribuiu para transformar o estilo musical recebido da escola franco-flamenga do século XV e início do século XVI numa linguagem musical típica do estilo veneziano, que também explorava as peculiaridades arquitetónicas e acústicas da basílica, tocando em ambos os timbres (com uso extensivo de instrumentos de sopro, especialmente instrumentos de sopro) e as alternâncias espaciais permitidas pela localização dos dois coros na basílica.

No entanto, muito poucos destes elementos podem ser vislumbrados no seu O sacrum convivium (https://www.youtube.com/watch?v=yc66EZrl1R8), um belo motete para cinco vozes (SATQB). Em parte, isto justifica-se pelo facto desta composição datar dos primeiros anos da sua atividade artística, mas é provavelmente também uma consequência de uma escolha estilística precisa: Gabrieli, tal como Mozart e Liszt, cujas composições sobre um tema eucarístico discutimos anteriormente, renuncia ao aspeto mais glorioso e brilhante da sua música em favor de uma atmosfera mais meditativa centrada no mistério eucarístico.

A escrita de Gabrileli nesta peça é densa e envolvente. As vozes privilegiam normalmente andamentos “per grado congiunto” (ou seja, sem “saltos” melódicos), reservando apenas para alguns momentos significativos um andamento mais alargado. O predomínio de valores longos que dão um ritmo lento à música é animado por pequenos incisos em notas mais curtas, que as cinco vozes passam umas às outras; estes incisos constituem muitas vezes fragmentos de escalas, que dão um impulso ascendente à música.

No “alleluia” final, o andamento muda e torna-se ternário (o andamento típico da dança); aqui, aliás, Gabrieli atua combinando e contrastando grupos de quatro vozes (as mais agudas e as mais graves, por sua vez), antecipando assim a técnica dos “coros quebrados” que ele próprio viria a contribuir para divulgar. É, em geral, uma peça de incomensurável doçura e serenidade, com profunda seriedade e igualmente mística.

                       *sacerdote e aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma.