Uma mensagem para os novos padres

Por Jorge Teixeira da Cunha

Sempre que chega o fim do ano letivo, acontece nas nossas dioceses a ordenação de alguns padres novos. O número vai estabilizando em cerca de duas dezenas, entre diocesanos e religiosos. Isso significa principalmente que a vocação continua a ser uma realidade, mas que temos de pensar com urgência sempre maior como vamos assegurar a presidência das nossas comunidades paroquiais e os nossos movimentos de apostolado. A Igreja não pode existir sem ministros ordenados, mas a forma de despertar as vocações e de as validar tem de ser pensada de novo.

Um futuro de trabalho intenso espera estes novos ministros, tendo em conta as necessidades sempre crescentes de gente para assegurar a celebração da eucaristia e as outras formas de manutenção das comunidades. Por isso ocorre defender estes novos ministros para que não sejam submetidos a um ritmo louco que coloca em causa a qualidade do trabalho pastoral e mesmo a perseverança na vocação. Segundo boas opiniões, a formação é bastante boa, mas o acompanhamento dos novos e dos outros deixa algo a desejar. Não há muitas soluções para obviar a este risco, tendo em conta o a forma de vida dos padres seculares, caracterizada pela autonomia, independência e subsistência material a cargo de cada um. Há, porém, algumas formas de acompanhamento e alguns cuidados que são absolutamente necessárias para que os primeiros tempos dos novos padres não sejam traumáticos e não corram o perigo de rapidamente ficarem amargurados e mesmo desesperados. Muito útil seria distribuir os membros mais experientes, mais prestigiados e mais capazes, pelos lugares que criam centralidade e confiar-lhes algum papel na integração e no acompanhamento dos novos que chegam à vida pastoral. Com sabedoria e prudência, isso seria possível, escolhendo pessoas que sejam capazes de exercer influência sem paternalismo e de motivar os novos sem lhes impor qualquer forma de seguidismo. Alguma vez seremos capazes de operar uma tal reforma das nossas dioceses?

Se é certo que o lugar dos padres seculares é no meio do seu povo, também é verdade que alguma forma de proximidade e de cooperação é possível e desejável. Deixados à sua sorte, muitos jovens correm o sério risco de optar por estratégias de sobrevivência pouco defensáveis. Entre essas, podemos observar alguma tendência para o integrismo, para o rubricismo, para a intransigência moral e pastoral com os fiéis. Reparemos que estes caminhos estão em linha com certas tendências da nossa cultura de hoje. Os movimentos populistas, o crescimento das opções políticas extremistas, revelam uma carência de realidade que não existe só na Igreja. Quando assim é, a cultura inventa formas de sobrevivência de substituição.

Por isso, se algo podemos aconselhar aos novos padres é não descurem a autêntica experiência da fé, pois essa é o caminho fundamental para a realidade tanto pessoal como comunitária. Essa experiência nos livrará de buscar apoios na secura da doutrina, na letra da norma moral, ou na vagabundagem das modas e de estilos de vida apresentados pela comunicação massiva das redes. A experiência da fé é incoativa, é uma conversão que configura de novo e profundamente e continuamente a existência humana. Essa experiência é progressiva e dá sentido à história pessoal e à criatividade pastoral imprescindível para congregar o povo de Deus. Essa experiência supera continuamente o maniqueísmo que vê tudo como mau ou como bom, tanto na vida pessoal como na dos outros. A vida nunca é totalmente má nem totalmente boa, é um processo histórico de libertação do mal e de entrada no bem, uma vida sujeita ao fracasso, ao insucesso, mas, por graça, sempre aberta à conversão contínua. A experiência da fé autêntica desenvolve a capacidade de confronto com os outros, de escuta dos outros, de respeito pelos outros. E já por cá andava mesmo antes da preocupação com a sinodalidade.

Os novos padres sejam bem-vindos. A vida sacerdotal é uma aventura inesgotável e não uma forma que se aprende de uma vez para sempre.