Cinema visto pela Teologia (118): “Profissão: Perigo”

Uma leitura do filme “Profissão: Perigo

Por Alexandre Freire Duarte

Eis um filme que foi pensado para divertir. E que bem-sucedido que é nisso mesmo, precisamente por não ter querido ser mais do que isso. “Profissão: Perigo” é uma deliciosa obra belamente romântica, ridiculamente cómica, requintadamente misteriosa e maravilhosamente cheia de espetaculares cenas de ação, que, no todo, formam um hino aos anónimos “duplos” cinematográficos. Tudo isto faz este filme ser já realmente icónico, apesar de algumas debilidades: o não nos fazer imergir propriamente a fundo nele e o parco desenvolvimento das personagens e de algumas cenas descoladas.

Gosling e Blunt espelham, nesta obra, uma química que faz saltar faíscas apenas ao olharem-se um para o outro, mas, estimei-os um pouco pesarosos, não obstante Gosling seja brilhante em tudo o que faz e Blunt se mostre muito carismática. Taylor-Johnson também cintila no “tonto” papel de divo, mas foi com imensa pena que os demais atores não tenham podido sair de mediocridade. Contudo, na era dos efeitos especiais e até do começo do uso da IA, este filme sabe a algo natural com o seu meticuloso ar encodeado.

Tal como acontece com os duplos de cinema, todos nós, nesta sociedade pós-agradecimento, vemos diariamente dezenas de pessoas sem as quais não viveríamos, mas que, para nós, permanecem invisíveis, quais espectros. Não sabemos os seus nomes – nem nos interessamos por sabê-los –, apesar de eles, tantas vezes, os terem nas lapelas; não entabulamos uma mínima conversa significativa com eles, no pouco tempo em que podemos ser empáticos com os mesmos: nada de os “deixarmos entrar” nas nossas vidas, com os seus problemas que nos poderiam transtornar. São, dizia, como vultos espectrais.

Se calhar até parecem estar bem. Todavia, se rasparmos a sua pele encontraremos (tal como em tantas outras pessoas a quem perguntamos “como está?” sem querermos verdadeiramente ouvir uma resposta substancial) perdas, incertezas, aflições, medos e dores. Negando-lhes o podermos ser, em Cristo, o seu balsamo espiritual, eles vão vivendo negações atrás de negações até crerem ser “nada”, sendo que a nós estará à espera um precipício de desamor, que de ténue se transformará numa cardiopatia.

Mas não são apenas as pessoas que se veem impercetíveis. São também os seus trabalhos, impedindo – justamente como vemos neste filme – que o labor seja uma forma das pessoas se exprimirem e, desta forma, se darem em comunhão. Pior: impedindo que cada um seja um “lírio do campo”, tendo um trabalho justo no qual viva integralmente (como ocorreu nas relações de Jesus, nas quais Este nunca Se deu em percentagens).

Isto não é poesia! É dizer que, expropriando-nos para sermos propriedade comum pelo amor, estamos chamados a potenciar que os trabalhadores – a quem não olhamos nos olhos (para as suas pupilas não pegarem fogo às nossas vidas) – vivam no sepulcro vazio. Aquele lugar espiritual que lhes tira todos os medos reduzíveis a dois: o da morte e o pior de todos – o da vida. Tirar as ânsias aos demais (em linha com os sucessivos «não tenhais medo» de Jesus) devia ser uma missão central dos cristãos. Ocorre que também nós vivemos inquietos, precisamente porque fazemos dos demais contornos, em vez de os integrarmos, pelo amor, na união com Cristo nos píncaros da Sua luz e alegria.

(EUA; 2024; dirigido por David Leitch; com Ryan Gosling, Emily Blunt, Aaron Taylor-Johnson e Teresa Palmer)