Pela Dignificação dos Povos Colonizados: Em Moçambique – (I) – O Precursor

Por João Alves Dias

Se, ao falar do ’25 de Abril’, não podemos esquecer os seus 3 D’s – Democratizar, Descolonizar, Desenvolver – também não se pode ignorar o papel de figuras da Igreja na defesa e promoção dos povos colonizados.

Como homenagem a uma das maiores, D. Manuel Vieira Pinto, no centenário do seu nascimento (Aboim, Amarante – 9/12/1923), foi apresentada (20/1/2024) a obra ‘Moçambique – da Descolonização à Guerra Colonial – A Intervenção da Igreja Católica, de Amadeu Araújo e Manuel Vilas Boas.

No capítulo IV deste livro onde se cruza o rigor histórico com o testemunho vivencial dos seus autores, brilham – como resposta “da Igreja ao drama da exploração do homem africano” – “três grandes bispos missionários reformadores, que têm em comum, também uma ligação profunda à Diocese do Porto” (pág. 133).

O primeiro, ainda no tempo da Monarquia, a erguer a voz foi o ‘nosso’ D. António Barroso.

Deixo-vos com as suas palavras…

– Na Sociedade de Geografia de Lisboa ((7/3/1889), lamentou o contraste:

Os missionários pregariam, sem dúvida, que os homens eram irmãos. (…) tratariam com carinho e bondade os seus súditos (…). Ao lado, porém, (…) estava o comprador de homens, o que estrangulava os laços que prendiam o filho ao pai, e a mãe à filha; o despovoador da região, o destruidor de todos os afetos, o homem sem coração, que ganhava punhados de ouro vendendo aquele que a religião lhe dizia ser seu irmão” (pág. 140)

–  Numa viagem que efetuara à Zambézia, denunciou os ‘muzungos’ – de pele clara, geralmente portugueses’ – que “devoravam como cancros o país’:

Esta Zambézia tem sido (…) um covil de crimes que nos desonram. (…) Nestas coisas o preto é, em geral, quem paga as despesas e são os ‘muzungos’ que recolhem os proveitos”. (pág. 42)

– E desmitificou três preconceitos racistas, então, muito em vigor:

1.º‘O preto é incivilizável’:

“Sei que há muito quem negue à raça preta a faculdade de se levantar da sua degradação atual, declarando-a incivilizável; na minha opinião, nada mais falso do que este juízo; o preto é hábil como os brancos, e eu poderia citar muitos exemplos para comprovar o que avanço. Todo o mal nasce do meio inicial em que vive”.

2.º – ‘As crianças negras não são educáveis’:

Se me derem vinte crianças pretas e vinte crianças brancas para eu educar, segregadas umas e outras de todo o contacto externo à missão, eu prometo fazer dos pretos homens tão aptos, tão laboriosos e enfim tão honrados como os brancos (…)

“O preto pequeno, nem é destituído de inteligência, nem é desobediente e perverso; pelo contrário, é dotado de boas qualidades, que brevemente perde, atendendo às circunstâncias em que vive”.

3.º‘O preto não gosta de aprender nem de trabalhar’:

“É muito fácil afirmar que o preto é rebelde à instrução e ao trabalho, é um estribilho banal que à força de repetido parece um axioma, e é falsidade, mas é um pouco mais difícil criar-lhes escolas que justifiquem merecer tal nome, e instituições de ensino adequado ao seu desenvolvimento e modo de ser atual. Enquanto a experiência se não fizer, eu pela minha parte, continuarei a acreditar que o preto é muito suscetível de aprender e de trabalhar, conquanto que lhe facultem meios eficazes” (pág. 143)

Interpretando o pensamento de D. António, o seu secretário e biógrafo, P. Oliveira Braz, escreveu:

“Nunca a violência foi meio adequado a consolidar o reconhecimento perdurável d’uma soberania; e, por isso, os processos de colonização, por nós adotados, amarguravam sobremaneira a alma do bondoso prelado pela sorte do pobre preto, sempre vitima da crueldade dos capitães-mores e ‘mazungos’ e do abandono moral e material a que tem sido votado pela mãe pátria” (pág. 141).

A concluir: “D. António Barroso foi decerto a primeira voz que recorrentemente se fez ouvir nas repartições públicas e nos gabinetes políticos de Lisboa, em defesa dos direitos do homem moçambicano” (pág. 143)

Quando há quem se apresse a ‘reler’ a nossa História e o racismo volta a ressoar na nossa terra – às vezes, infelizmente, extrapolando factos verdadeiros, como verifiquei na viagem de Metro que acabo de fazer – é bom saber que, já no século dezanove, uma voz autorizada da Igreja se levantou para contradizer os mitos racistas, denunciar a exploração dos nativos e verberar a escravatura. Sem medos nem calculismos…