Memória dos 70 anos do Calvário

Foto: Miguel Mesquita

Ainda no rescaldo da celebração dos 70 anos do Calvário, que teve momento festivo no Coliseu do Porto na noite de 17 de junho, Voz Portucalense publica um especial artigo de Henrique Manuel Pereira, docente da Universidade Católica Portuguesa e autor de vários livros sobre o padre Américo e a Obra da Rua

Por Henrique Manuel Pereira

Como foi noticiado nestas páginas, cumpriram-se, no passado dia 17 de junho, 70 anos da inauguração do Calvário, singular casa da Obra da Rua, sonhada por Padre Américo, edificada e conduzida por Padre Baptista. A efeméride foi festivamente celebrada no Coliseu do Porto, com a participação da cantora Teresa Salgueiro, a Banda do Exército (Destacamento do Porto), a soprano Cristina Silva e a participação de rapazes das Casas do Gaiato Paço de Sousa, Miranda do Corvo e Setúbal. A apresentação do espetáculo esteve a cargo de Júlio da Silva, antigo gaiato que, pela mão de Pai Américo, em janeiro de 1950, entrou pela “Porta Aberta” da Casa do Gaiato de Paço de Sousa.

Daquela noite, andam comigo estas palavras do Padre Américo, ali escutadas na sua própria voz:

“O Pe. Américo não tem feito coisa nenhuma. O Padre Américo é um manietado como todos vós. Vai impelido, impelido. Cumpre o mandado. Nós somos mandados. É Deus que escolhe a hora, que escolhe o lugar, que dá o toque, que dá a acção, que dá o pensamento, que ajuda a realizar e que termina a realização. É preciso que se compreendam essas verdades eternas, para não atribuir, para não atribuir as obras a pessoas que não são os autores. Nós somos apenas os executores. É preciso pôr Deus no seu lugar.”

Também no aniversário dos 70 anos do Calvário foi lançado o livro “Poema & Outros Textos”, da autoria do Padre Baptista. Editado pela Modo de Ler, organizado e prefaciado por Luís Leal – com apresentação do Padre Telmo Ferraz, Posfácio do Padre José Alfredo, desenhos de Volker Schnuettgen e coordenação de José da Cruz Santos – “Poema & Outros Textos” reúne cerca de três dezenas de escritos do Padre Baptista, o homem que, cumprindo o sonho do Padre Américo, como um mandado, edificou e conduziu o Calvário.

Sim, os textos de Padre Baptista têm textura de poesia e oração, como se as frases neles se incendiassem e as palavras nos queimassem. Este livro confirma-o. É a transcendência que nos toca. Quase não são já palavras. É a serena respiração de um homem de Deus.

O Calvário, finais do decénio de 1980: Uma entrevista

O texto que segue é um excerto do que, em dezembro de 2021, escrevi para o livro “A Madona em Giotto e Rafael”, da autoria do Padre António Baptista dos Santos. Por constrangimentos de espaço, não o publiquei, parecendo-me agora, no rescaldo dos 70 anos do Calvário, oportuno retomá-lo:

É próprio da arte esconder mais do que revelar. Sempre a beleza escondida supera a beleza visível. Proponho que viajemos a finais da década de 1980. O justamente célebre “70×7”, programa televisivo então realizado por António Rego e Manuel Vilas-Boas, fez-se, certo dia, a partir do Calvário, na Quinta da Torre, em Beire.

Eram oitenta e dois os filhos daquela casa. Por todos, recordo o José Artur, ali chegado pequenino, e Maria Alice, que aos seis anos de idade pesava quatro quilos e era cega por força da fome. Com naturalidade e alegria dizia-se “filha do Calvário”.

O repórter Manuel Vilas-Boas apresentava António Baptista dos Santos, então com 54 anos, “no silêncio discreto do seu trabalho”, como “verdadeiro motor da vida que aqui não se apaga”. Acrescentando que “o Calvário é toda a razão da sua vida”.

Foi este o diálogo, sem cábulas nem edição, entre o entrevistador e o entrevistado:

“Afinal, porque é que existe o Calvário, Pe. Baptista?

Existe porque a sociedade o impõe. A situação das pessoas que aqui estão, no fundo, é que é exigente. Exige uma resposta. E nós, como Igreja, pretendemos apenas dar essa resposta da Igreja, muito simples e sem pretensão alguma.

Aqui dentro mora a esperança, dizem as pessoas, não mora a esperança… o que é que mora aqui?

Aqui moram homens, filhos de Deus, com um destino eterno, que estão passando por este mundo numa contingência que se pode verificar, uma contingência, realmente, da doença, mas que aguardam o final da sua vida com toda a calma, com toda a paz, com toda a esperança, apesar da situação em que se encontram.

Os técnicos, os médicos, vêm isto com alguma surpresa, olham isto com alguma desconfiança…

Nem todos os médicos são iguais, nem todos têm a mesma visão do homem. Depende da visão de cada um deles, a maneira como encaram isto. Há uns que vêm isto como um prolongar a existência daqueles que não deviam existir já; outros que vêm isto com olhos muito sãos e muito sadios, encaram isto como muito positivo na sociedade.

O Padre Baptista está aqui desde o princípio, há 27 anos. Sente-se com coragem para continuar?

Preferia não dizer. No fundo há coragem, mas… a sociedade, hoje, pretende reprovar-nos essa coragem. É só o que tenho a dizer.

Padre Baptista, mesmo assim, quer contar-nos a última história que lhe entrou aqui pela casa dentro?

Uma história de uma criança, de tenra idade. O pai é cego, já não podia governar a sua casa; a mãe não tem capacidade suficiente para o governo da mesma. A criança nasceu neste ambiente que não dava condições de sobrevivência. O tribunal interveio e entregou-nos a criança. Está aí já há dias. A criança é amorosa, pequenina, mas com sequelas graves do nascer. Tem cataratas congénitas e surdez. Andamos a procurar intervir no sentido de ela poder recuperar a visão. Quando ela chegou foi realmente o entusiasmo das crianças da idade dela e da dos adultos, que exclamavam pasmados diante do nosso achado último: “O Menino Jesus este ano veio mais cedo!”. E parece que sim, parece que veio mais cedo. Evidentemente, esta visão de Cristo que vem, só os simples a descobrem; só aqueles que são simples, segundo o Evangelho, fazem entender que Cristo continua a vir, continua a estar presente no meio dos homens. Só quem for como criança, diz o Evangelho, é que encontrará o Reino de paz, de justiça, de amor. E esta criança vai encontrar aqui certamente estes valores. Vai encontrar a paz – que já encontrou, na cama onde repousa, onde a sonhar, por vezes, sorri. E vai, nos beijos que lhe vão dar, encontrar o amor que lhe foi negado pelos seus pais.”

Afinal, Padre Baptista, houve um lugar aqui para esta criança…

Há sempre mais um lugar, quando a gente abre os braços e tem capacidade interior para receber quem quer que seja.”

A entrevista terá acontecido uns dois anos antes de eu conhecer aquela família. (Na verdade, não gosto da palavra família aplicada a instituições ou grupos. Quem a usa, via de regra, diz o que deveriam ser e não o que na realidade são. No extremo oposto coloco o Calvário, sem encontrar outra que melhor diga o que ele foi). Assim, durante sessenta anos – obra de doentes, para doentes, pelos doentes –, Padre Baptista, como pai, alguns voluntários, juntos, por dentro dos invernos e das flores da primavera.

Ao tempo, Maria Adelaide, figura materna e grande, contava já dezasseis anos de casa. Margarida Pereira, outra mãe imensa, contaria bastantes mais. À margem destas mulheres e mães não se poderá fazer a história completa do Calvário.