Secretariado Diocesano da Liturgia: O verdadeiro sacrifício

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Uma das acusações lançadas pelos adversários da reforma litúrgica, decretada pelo II Concílio do Vaticano e promulgada por São Paulo VI, foi a de que o novo Ordo Missae [Ordinário da Missa] negava ou, pelo menos, não exprimia de forma capaz a doutrina católica sobre o caráter sacrificial da Missa, tal como formulado no Concílio de Trento. O Missal era mesmo acusado de heresia e reclamava-se do Papa a sua revogação, ainda antes de ter entrado em vigor (30 de novembro de 1969). Diga-se a este respeito que, logo em 1970, aquando da publicação da primeira edição típica do Missale Romanum, a tão injustamente contestada Instrução Geral do Missal Romano [IGMR] foi antecedida por um denso e suculento Proémio em que se deu resposta cabal a essas críticas malévolas e gratuitas. Desde a terceira edição típica (ano 2000), esse Proémio integra o texto da IGMR, em numeração contínua (nn. 1-15). Àqueles que reclamavam a manutenção da «missa tradicional» foi dito então, de forma bem argumentada, que o rito renovado para celebrar a Eucaristia e o novo Missal do Rito Romano no seu todo são expressão de uma «tradição ininterrupta» e «testemunho de uma fé inalterável» e inalterada.

Ao ler alguma da pobre literatura teológica dos pseudo defensores da Tradição contra a renovação pós-conciliar fica-se com a impressão de que eles ficaram no patamar do AT ou até do paganismo e que a sua compreensão do mistério da redenção continua refém de um conceito de justiça vindicativa que transforma em Moloch o Pai de misericórdia, o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo. A reflexão paulina sobre o valor propiciatório da morte e ressurreição de Cristo e toda a superação da visão judaica da expiação aparentemente passa-lhes ao lado. Parece que ainda querem liturgos do antigo templo da histórica Sião quando nós temos um Liturgo e uma Liturgia melhor.

O nosso Liturgo – que não exerce qualquer sacerdócio de ascendência levítica porque era da tribo de Judá, descendente de David – não se apresenta uma vez em cada ano no santo dos santos para realizar um rito de expiação, aspergindo com sangue de animais irracionais o propiciatório, a tampa de ouro da Arca da Aliança. Lembremos, a propósito, que as cortinas que isolavam o «santo dos santos», no templo de Jerusalém, foram rasgadas ao meio, de alto a baixo, quando foi imolado no Calvário o verdadeiro Cordeiro, a única e definitiva vítima que se ofereceu ao Pai num Espírito eterno (cf. Mt 27, 51). Pela sua morte e ressurreição, Jesus «passou deste mundo para o Pai» (cf. Jo 13, 1). Entrou assim, de uma só vez e para sempre, no Santuário verdadeiro, com o seu próprio Sangue e está sempre vivo a interceder por nós, alcançando-nos, assim, uma redenção eterna. O seu sacrifício não foi a execução de um ritual, foi a Sua Vida dada na liberdade do Amor na Cruz da injustiça, violência e crueldade humana e que o Pai acolheu e transformou em vida na manhã do terceiro dia. Esse é o mistério admirável da nossa Fé.

Doravante, quando queremos compreender o que é um sacrifício, já não olhamos para as aras e altares das muitas religiões da humanidade para depois verificar o que é que a nossa Missa tem de comum com esses ritos religiosos. Nem sequer devemos atender à multidão e diversidade dos sacrifícios que se imolavam no templo de Jerusalém e que eram apenas tentativas sinceras mas impotentes para alcançar a reconciliação dos homens com Deus e consolidar uma aliança de Paz geradora e aglutinadora de um Povo (eram, contudo, sinais, sacramentos prefigurativos que já apontavam para um Redentor e uma redenção que haviam de vir). Nós, cristãos, olhamos para Jesus Cristo, o Cordeiro da nova Páscoa, anunciamos a Sua Morte, proclamamos a sua ressurreição e ansiamos pela sua vinda gloriosa. Mas não o fazemos apenas com palavras, ideias, sentimentos, emoções, recordações do que Ele fez outrora, num pretérito perfeito. Porque o Senhor Jesus Cristo deixou-nos um modo maravilhoso e inefável de nos tornarmos contemporâneos do seu Sacrifício Redentor, concede-nos «tomar parte», participar nele, inventou uma modalidade sublime de «comungarmos» com Ele e, assim, alimentarmo-nos dos seus frutos: a Eucaristia, memorial da sua Páscoa, banquete sagrado em que nos dá a comer o Pão da Vida que é o seu Corpo sacrificado, e nos dá a beber do cálice da bênção o sangue precioso que faz de nós o Povo novo da aliança eterna.

Jesus, o eterno Senhor da Hora que assumiu a temporalidade humana, na Véspera da sua Paixão redentora, antes de viver na verdade e nas dores da sua carne martirizada e da solidão do seu abandono o amor com que nos amou «até ao fim», já antecipou em sinais simples da criação e da cultura, eloquentes e grávidos de sentido, o núcleo, a essência do que estava para se cumprir de forma cruenta: sob a espécie do pão partido nas suas mãos santas, já estava o seu corpo sacrificado para que dele comessem, fazendo memorial não já da libertação antiga, mas d’Ele que se entregava livremente ao sacrifício; e no cálice que lhes deu, o vinho tornara-se sangue da aliança, derramado para a redenção de muitos. Deviam beber serenamente porque Ele próprio já antecipadamente aceitara o cálice amargo da Paixão das mãos do Pai, do seu Abba. «Fazei isto – disse aos Apóstolos – em memória de Mim.

A nossa Eucaristia não é uma mera recordação: graças ao memorial, que a Igreja jamais omitiu, em obediência ao Seu mestre e Senhor, é uma presença real: de Cristo e da máxima das suas obras, da maravilha assombrosa do seu Amor. É o hoje e aqui em que nos é dado participar no sacrifício da redenção. Porque «todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício realiza-se – acontece efetivamente – a obra da nossa redenção» (Oração sobre as Oblatas de Quinta-Feira Santa; cf. SC 2; LG 3).