Do Padre Américo ao Calvário: os caminhos da promoção humana

Por M. Correia Fernandes

1 A celebração dos 70 anos da criação do Calvário, pelo Padre Américo [Monteiro da Aguiar], realizada no Coliseu do Porto, conduziu-nos a algumas lembranças sobre uma das figuras que deu corpo à instituição, o Padre Batista, e por outro lado, lembrou-nos a publicação de um volume pelas edições “Modo de Ler”, organizado pelo editor José da Cruz Santos, com o título “É tempo de falar do Padre Américo: desenhos, pinturas poemas & outros lugares poéticos”.

Curiosamente, embora contenha muitas datas dos textos publicados, o livro não tem data da publicação, certamente para lembrar o sentido de intemporalidade da mensagem que quer encerrar.

Nele se encontra, para além de uma entrevista ao editor, por Isabel Ponce de Leão, um prefácio do atual responsável da Casa do Gaiato de Paço de Sousa, o Padre Júlio Pereira, textos de personalidades relevantes da Igreja e da sociedade nacional, como o Bispo D. António Ferreira Gomes (1906-1989), o Bispo António Francisco dos Santos (1948-2017) e os padres do Gaiato, Carlos Galamba (1926-2011) e Manuel Mendes (atual responsável da Casa do Gaiato de Coimbra (Miranda do Corvo), os Bispos Júlio Tavares Rebimbas (1922-2010), Manuel Martins (1927-2017), António Marcelino (1930-2013), D. Gabriel de Sousa (1912-1997), e Januário Torgal. Todos recordam projetos, experiências e actos simbólicos da figura do Padre Américo.

O volume contém ainda um conjunto significativo de “desenhos  & pinturas” e outro conjunto de “poemas & outros lugares poéticos” de muitas personalidades do nosso mundo cultural, que olham a figura do Padre  Américos pelos múltiplos ângulos da sua obra e personalidade. Os “outros lugares poéticos” são-no especialmente pelos caminhos da prosa, onde se pode expandir a poesia. As múltiplas imagens falam da figura do Padre Américo, mas especialmente da sua mensagem. A sua figura já é uma mensagem.

Do sentido desta publicação, podemos referir a divulgação da obra e do autor como “uma obrigação moral que é de todos os portugueses”, e que “nas grandes avenidas da liberdade do Santo Padre Américo há de certeza compreensão para todos”, como refere o organizador do projeto.

Surgiu também a ideia de que importaria lembrar a figura do Padre Baptista, que dedicou longos anos da sua vida à casa do Calvário, em Beire, Paredes. Dele publicaram também as edições “Modo de Ler” um volume de “Poemas & outros textos”, com prefácio de Luís Real, apresentação do Padre Telmo Ferraz (igualmente ligado à Obra da Rua), um Posfácio do Padre José Alfredo, atual responsável do Calvário, com desenhos da Volker Schnuettgen, e coordenação de José da Cruz Santos. A contracapa mostra testemunhos das conhecidas figuras da nossa sociedade: Aníbal Cavaco Silva, António Ramalho Eanes e Jorge Sampaio, que foram presidentes da República, em que se salienta a sua dimensão de “enfermeiro cuidador, professor e pastor”, que “tantos deserdados recolheu e de quem cuidou”.

Natural de Pampilhosa da Serra (n. 1930), dos seus textos de reflexão que o editor reuniu, retiramos alguns poemas, que traduzem o seu sentido da visão do mundo e dos dramas humanos, inseridos nos recantos da natureza e da vida.

Os nossos rapazes eram e vieram

Da rua.

Tiveram por mestre

a mesma rua.

E se nem sempre voltam às pedras da dita,

É frequente revelarem

Bem vincados

Os traços que a rua

Lhes marcou. (1960)

 

Calvário

Já tudo repousa

Em nossa Casa.

A noite está estrelada,

Límpida, silenciosa.

Um melro quebra o silêncio

Ao piar nos ramos

das carvalhas.

No céu profundo

As estrelas cintilam, quase perdidas, da nossa vista. Gravitam no seu tempo

Que não é o nosso.

Não carecem da luz

do sol,

Porque elas próprias também ardem

Em fogo e luz. (…)

As estrelas têm o seu lugar lá no alto. Mas há muitos

homens que o não querem ter  neste mundo. (27 de julho de 2010)

A Macieira

Cresceu e tornou-se adulta. O pomar onde ela foi levantada, encontra-se repleto de irmãs que igualmente foram crescendo. Este ano a macieira floriu como nunca, abundantemente. Com a brisa e o vento caíram as flores e os frutos surgiram amontoados nos ramos que pendem, por vezes a tocar o solo.

Hoje, ao passar junto dela vejo-a tombada, comparte das raízes fora da terra. O peso dos frutos provocou a queda. Com a ajuda do nosso tractor vamos levantá-la e esperar que os frutos vinguem.

Fiquei triste mas pensativo. A macieira deu-se até ao extremo das suas capacidades e caiu exausta. Neste seu cair por terra mostrou o que é a doação total, mesmo com o risco de uma queda.

A macieira é mais generosa que a maioria dos homens. Gostava de tombar um dia como ela. (padre Baptista)