Deu dois pedaços de abóbora

Por Joaquim Armindo

Um olhar penetrante, com uns olhos a fazer poema, é a história contada na revista “além-mar”, dos missionários Combonianos, de junho do corrente ano. É de um menino que deu a um missionário “dois pedaços de abóbora”, num gesto significativo da sua alegria por ter realizado aquele ato pequeno, mas cheio de amor. A história é de um pequeno menino, cuja mãe ao ver o missionário sentado envia o menino para dar “dois pedaços de abóbora”, ou seja, todo o seu ser, tudo o que tinha. O mais significativo nesta ação é a cara do menino, a sua alegria e a profundidade do seu sorriso. De pés descalços, calções, uma camisa branca a cair, cabeço curto, face morena, dentes brancos e um sorriso da evidência do que é “dar”, mas dar tudo o que tem: dois pedaços de abóbora. Este momento o do “dar” é significativo de duas coisas: uma a da alegria de dar, e dar o que tem, colheu e deu, e outra o de reconhecimento do papel do missionário que também dá o que tem, a sua vida. Temos sempre a tentação de na sociedade considerar aqueles que chamamos de “padres”, como autoritários, mandões e abusadores sexuais, felizmente nem todos são assim, e o exemplo é dado por este menino que reconhece no missionário padre um amigo que está com ele como um “pai”, por isso dá-lhe com o ardor da sua bondade e das suas mãos pequeninas o que tem: dois pedaços de abóbora. Aqui em Portugal normalmente o “padre” é esse “mandão” que tudo sabe e só ele põe e dispõe, mas lá longe não é assim, eles servem, por isso o seu amor transborda.

Mas o mais interessante não é considerar o “padre”, o missionário, mas as mãos e o sorriso do menino. Lembro-me daquela canção do José Afonso: “menino do bairro negro / queira ou não queira o papão / hás de um dia cantar esta canção”. Este menino está a cantar esta canção, da sua liberdade e mesmo de pés descalços – nesta fotografia não se vê, mas no original sim – ele canta a canção do dar, até porque muito tem recebido. Os pés descalços ou a camisa rota, não significam a vontade de se dar e de dar tudo o que tem, a canção de andar pelos montes numa liberdade, igual à de Jesus quando caminhava pelos montes e vales e mares.

Uma reflexão que cada cristão e cada cristã e homem e mulher de boa vontade tem de fazer ao ver um gesto que seria para si insignificante – lembro-me quando à professora primária se levava uma dúzia de ovos, pelo natal -, mas adquire todo o significado quando se dá tudo o que se colheu. Dar, com este sorriso, é dar com satisfação, com alegria reconhecida, com todo o ardor da confiança num servo do Senhor Jesus. Os olhos cantam – como dizia –, um poema de amor e confiança, confiança e amor que só tem quem se dá, por inteiro. O sorriso foi muito mais que o depósito de “dois pedaços de abóbora”, os seus dentes brancos sobressaem da sua carita quase escura. São eles que ditam a beleza e o amor do ato, do gesto, da capacidade do Amor.