Da história da música para a liturgia: O Ave verum corpus

Foto: João Lopes Cardoso

Por Bruno Ferreira*

A versão de Poulenc

Apresentamos mais uma roupagem musical do Ave verum corpus. Desta vez apresentamos a versão de Francis Poulenc (1899-1963), que difere de ambos os seus ilustres predecessores que anteriormente referimos (Mozart e Liszt).

Sobre Poulenc podemos dizer que produziu uma obra vasta, abrangendo todos os géneros: piano, música de câmara, orquestral, música sacra, óperas e balés. O seu trabalho compositivo é geralmente dividido em duas partes: obras leves, bem-humoradas, de alto astral e irreverentes; e, a partir de 1930, obras sérias, em particular, as de caráter religioso, que começou a compor em 1936. O próprio Poulenc buscava em todas as suas composições uma “música saudável, clara e robusta – música tão francamente francesa como a de Stravinsky é eslava”. Para Henri Hell, crítico musical e autor de um livro sobre Poulenc, “a sua música é essencialmente diatônica (tonal), porque a sua principal característica é o seu dom melódico”. Já Roger Nichols escreve no dicionário Grove Music que “para Poulenc, o principal elemento era a melodia, e ele encontrou o caminho para um vasto tesouro de melodias inéditas, numa área considerada pesquisada, trabalhada e esgotada”.

Quanto ao Ave verum, se Mozart tinha escolhido o acompanhamento instrumental – ainda que muito discreto – e Liszt o coro “a cappella”, Poulenc reduz ainda mais as forças em jogo ao escolher um coro a três vozes iguais, exclusivamente feminino, sem acompanhamento   (https://www.youtube.com/watch?v=sMs_zFDtr3I). Ao contrário de Mozart, porém, Poulenc adota repetições textuais, que correspondem também a uma espécie de repetição a nível musical: de facto, a composição termina com uma repetição do texto inicial.

Além disso, ao contrário dos outros dois compositores, que tinham escolhido um estilo predominantemente ou quase exclusivamente “homofónico” (ou seja, quase sem imitações), Poulenc recorre muito ao estilo imitativo, a ponto de apresentar a parte inicial quase como um cânone (ou seja, a forma mais rígida de imitação).

Em termos de harmonia, por outro lado, embora a sua escrita seja obviamente novecentista – em contraste com a setecentista de Mozart e oitocentista de Liszt – o tipo de escolhas compositivas é mais semelhante ao de Mozart do que ao de Liszt: as harmonias são de facto muito refinadas e com um notável uso do cromatismo, mas resultam pouco audíveis ou evidentes.

Tal como Mozart, Poulenc opta privilegia a fluidez da escrita, ajudado pela textura transparente e o timbre puro do coro feminino. As harmonias, mesmo as mais invulgares, nunca são ásperas e nunca surpreendem o ouvinte; pelo contrário, o compositor parece guiar o ouvinte através dos meandros da harmonia quase sem se aperceber. A música, além disso, é ajudada a fluir pelos “floreados” que Poulenc espalha nas melodias das diferentes vozes: por sua vez (mas com uma predominância dos Primeiros Sopranos), as cantoras criam “ondas” melódicas que adornam e levam a música para a frente, em contraste com a progressão mais fixa e deliberadamente estática de Mozart e, sobretudo, de Liszt.

Em todas as três versões analisadas, porém, o que é notável é a atmosfera recolhida e contemplativa de uma adoração intensa e participativa: mais encantada em Mozart, mais séria em Liszt, mais fresca em Poulenc, mas sempre sentida e concentrada. Três versões que nos levam ao pé do Mistério Pascal, numa veneração absorta do Sacramento da Eucaristia.

*sacerdote e aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma.