Sobre os sentidos da dinamização cultural

Por M. Correia Fernandes

Nos tempos idos de 1974, passada a euforia dos primeiros dias e as coisas bonitas do sentimento da liberdade e da participação, uma das tarefas assumidas pelas forças políticas e socias do tempo foi a da dinamização cultural, procurando levar à população os valores da dignidade social, da participação na vida pública, da divulgação do conhecimento e dos percursos alargados dos meandros do universo cultural em ordem à valorização da pessoa humana e das suas condições de vida e de convivência social e cultural.

Desenvolveram-se na altura iniciativas, como as campanhas de alfabetização, que oscilavam entre a orientação para o crescimento pessoal e de convivência social e por outro lado numa tentativa de direcionalização com inspiração nas doutrinas sociais do espírito do socialismo segundo as doutrina marxistas e comunistas.

Esta experiência do passado que teve os seus méritos, pode levar-nos a pensar em algo semelhante para os dias de hoje. A sociedade hodierna manifesta cada vez mais necessidade de uma dinamização cultural doutro tipo e com outros parâmetros. Já não é tanto a questão da alfabetização, suposto que a escolaridade se estendeu louvavelmente e toda a sociedade, mas a questão de como orientar a vaga de informação com que nos debatemos de uma forma que conduza à valorização da pessoa e da sociedade.

A avalanche de toda a espécie de dados informativos, verdadeiros ou falseados, com que as redes sociais inundam as mentes de adultos, jovens e crianças, constitui um problema de fundo, agora ainda ampliado com os percursos da chamada Inteligência Artificial, que preocupa governos e cidadãos, e à qual o próprio papa Francisco tem dedicado reflexões oportunas, adaptadas de diversas formas por pensadores, sociólogos e comunicadores. Lembrava-se  nessa altura que era pelo diálogo e reciprocidade de informação que a aprendizagem e a sabedoria se poderiam afirmar em equilíbrio, quer dos indivíduos quer das comunidades.

Os princípios de uma inteligência artificial digna da pessoa humana e da sociedade convivente tem de se guiar pelo respeito pela pessoa e pela sua dignidade. Esta dimensão exige uma espécie de salto de qualidade, que partindo dos domínios da tecnologia  avançada e aperfeiçoada conduza ao coração das pessoas e se inscreva nas estruturas sociais da informação e divulgação. A sociedade dos nossos dias mostra-se complexa, multiétnica, multirreligiosa e multicultural. O tratamento destas dimensões precisa de percorrer os caminhos de passar dos dados estatísticos para as pessoas, dos esquemas lógicos e técnicos para o pensamento e a sabedoria.

Outro problema é discernir em que medida este universo tecnológico se coaduna com o dado essencial da liberdade humana, em favor dos mecanismos dos interesses económicos, dos jogos do mercado e das estruturas do poder e do seu controlo. O uso e o tratamento da informação têm de constituir uma preocupação de base para o equilíbrio social e humano, e constituir uma dimensão séria e assumida pela comunicação social atenta aos fenómenos da convivência humana.

Neste sentido lembra o Papa que pode a sociedade encontrar-se no conflito entre uma nova escravidão, e os caminhos de conquista de uma nova liberdade, aquela em que todos participem na elaboração do pensamento e se conduzam pelo sentido ético dos comportamentos.

Este caminho de confronto entre liberdade e constrangimento, entre dominação e libertação, tem de passar pela descoberta e respeito dos valores éticos, tomados como critério de ordenação e vivência, de equilíbrio e a construção: tem de passar pelos caminhos da moral e da pedagogia. Ganha assim dimensão um novo conceito de formação, que promova a inclusão social, a interação entre as diversas estruturas sociais e mentais que circulam pelos meandros da informação hodierna, promovendo campos de leitura dos acontecimentos e dos dados culturais em que se desenvolve o relacionamento humano e o desenvolvimento e crescimento das possibilidades e limitações da profusão dos instrumentos informativos.

Trata-se de um campo de dinamização cultural adaptado e orientado para o universo mental dos dias de hoje, talvez um pouco esquecido nos dinamismos da Educação.