Cinema visto pela Teologia (117): “A Lista de Schindler”

Uma leitura do filme “A Lista de Schindler”

Por Alexandre Freire Duarte

Parece ter saído ontem, mas “A Lista de Schindler” já tem mais de 30 anos. Porém, este drama quase-histórico não envelheceu um dia na sua abordagem severa, chocante e impressionante de um dos mais atrozes e sombrios eventos da humanidade: a Shoa. Mas esta é “apenas” a moldura de um poderosa e magistral análise de personagens, vistas sem sentimentalismos indulgentes, antes com um cerceado rigor artístico que fala por si sem carecer de truques. Não que estes não existam, mas aparecem em picos súbitos que não distraem do essencial da capaz, visceral e inteligente narrativa que nunca é o que parece.

Kingsley é comedido, insistente e pertinaz, mas é o duo Fiennes e Neeson que resplende. Não me parece que o facto da personagem do áspero e cortante Fiennes seja a de um psicopata a transforme numa caricatura: ela é o símbolo daquilo em que muitas das pessoas banais se tornariam acaso tivessem o seu poder: o sem-sentido do mal. Neeson representa, com brilhantismo superlativo, é um glamoroso e audacioso aldrabão, por fora e por dentro, mas que se transmuta em parte em dois momentos-chave do filme. A abordagem das câmaras muda consoante a perspetiva que se esteja a dar atenção, mas às vezes confluem com graciosidade no meio de uma iluminação elementar, uma paleta de cinzas e uma banda sonora discreta, repleta de alma e de melodias étnicas que duram.

Já quando vi pela primeira vez este filme, bem antes de pensar estudar teologia, uma dúvida me assolou: pode um trafulha narcisista e oportunista fazer o bem? Parece que sim. Mas o valor deste bem que é realizado depende mais das motivações do que possamos pensar. E não há dúvida alguma de que, pelo menos nesta obra, ele esteve disposto a tudo perder numa recusa da imobilidade que quando medra é a própria morte.

Não sabemos, mas não creio exagerar se disser que, mesmo com algumas das suas negações práticas da fé, talvez tenha sido uma réstia do seu Catolicismo. Um que lhe ensinou que o central, afinal de contas, não é ser bem-sucedido na vida, mas ser bem-sucedido num viver, que não é um exercício de piedade, mas daquele amor que sintetiza o mistério de Jesus no que este tem de mais silencioso e apagado entre nós: o sofrimento, a morte, a santidade e a pobreza. Viver tal amor não é heroísmo, mas aceitar o ordinário.

Não sei quantos mais genocídios houve depois da Shoa, mas sei que, neles, muitos salvaram muitas vidas. Contudo, não caiamos na tentação de dizer que Deus é bom porque salvou a estas, pois milhares à volta delas morreram. Deus é bom na vida (que vem d’Ele que é a Vida) e na morte (que até é um gesto de misericórdia para que, pelo menos ante um ponto final biológico, não continuemos a amar o desamor). Também aqui o assento da Sua catolicidade, que é o selo essencial do amor genuíno, está bem presente.

Um ultimo aspeto: esta obra tem o condão de apontar, contra a muito e(qui)vocada Anna Harendt, para a arbitrariedade nada banal do horror do mal quando associado ao não inferior ódio de um certo antijudaísmo. Aquele que a sarcástica Harendt talvez desconhecesse ter relevantes ligações com religiões especialmente antissemitas. Também não é a filosofia que impedirá novos genocídios. É a religião que, no amor do Deus-Amor, aceitar: desapegar-se para ir mais alto e que recolher-se para um ímpeto maior.

(EUA; 1993; dirigido por Steven Spielberg; com Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall e Embeth Davidtz)