O Papa e os humoristas, ou o Papa e o humor

Por M. Correia Fernandes

Será mais uma originalidade do papa Francisco. Mais que originalidade, é um sintoma da sua atenção à humanidade e do sentido do seu humanismo. Da sua humanidade, porque vai ao encontro de uma realidade social sempre assinalada e desenvolvida em todas as formas de criação (literária, de teatro, de imagens, de narrativas fílmicas e de livros que marcaram o mundo).

Do seu humanismo, porque quis acolher um universo de criadores de espetáculos cuja ação é tida por menos honrosa ou mais banal que tantas outras, tidas por mais sérias.

A palavra humor possui um universo de significações, que vão desde a seiva das plantas à disposição de ânimo ou algum estado de espírito. Lembramos que o rei D. Duarte, no seu Leal Conselheiro, falava de que muitas vezes esteve possuído de um “humor menencorico” que o impedia de um raciocínio lógico e de uma governação equilibrada, que considera “pecado de tristeza que procede da voontade desconcertada”, “do qual dizem os fisicos que vem de muytas maneiras per fundamentos e sentidos desvairados, mas de três anos continuados fuy del muyto sentido, e per special mercee de nosso senhor deos ouve perfeita saude.”

Essa perfeita saúde o levou certamente a escrever o “Leal Conselheiro”, como uma espécie de conjunto de orientações para a ética da governação e da sociedade daquele tempo: uma espécie de resumo do espírito de uma ética medieval (1425), a caminho de um pensamento social do período subsequente, ao gosto do Cortesão, de Castiglione (1528). Nele D. Duarte reflete em problemas como os valores morais (a soberba, a inveja, a ociosidade, a superstição), mesmo os sentidos do amor e da guerra.

Todos falamos de estar de bom humor, ou de mau humor, situações ambas frequentes que levam facilmente a resultados diferentes. O bom humor encoraja e ajuda a capacidade de trabalho, de diálogo, de entendimento e colaboração entre as pessoas; o mau humor torna-se facilmente raiz de controvérsias, de desentendimentos e de cansaço artificial.

O humor dos humoristas profissionais, e tendentes a sê-lo, possui outra dimensão, que é a do entretinimento das populações, ação para a qual são requeridas qualidades (de domínio de conceitos, de artes e de técnicas) para as quais faz falta o jeito, o estudo, o treino e a aceitação do público. O grande drama do humor é a solução simplista de enveredar pelo caminho da ofensa, da linguagem rasca, ou brejeira, ou libertina ou devassa.

Sabemos bem como o teatro desde sempre, e o cinema desde que começou a existir, buscaram no humor uma fonte da sua criação, tando de divertimento domo de mensagem. Poderíamos pensar em como Cervantes utilizou o humor na criação do Quixote, ou como Orwell criou a sua sátira à injustiça social ou aos mecanismos do poder. No cinema, sabemos como as suas origens se encontram nas criações de Chaplin ou de  Buster Keaton, em que o humor transmitia muitas vezes mensagens de humanidade.

Um inesperado caminho

Temos então que o papa Francisco abriu inesperado caminho (certamente propício à censura das tendências mais conservadoras, ou temerosas, ou retrógradas da vida da Igreja) de acolher em Roma mais de uma centena de humoristas de todo o mundo, entre os quais tiveram lugar três portugueses conhecidos das nossas andanças televisivas: Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques e Maria Rueff. Dizem as notícias e as imagens que esta ofereceu ao papa um presente, que parecia um vinho do Porto, coisa que não é desprezável e fica sempre bem mesmo a um não humorista.

De tudo, creio que o mais importante do evento deve ser refletir sobre as palavras que o Papa dirigiu aos humoristas, e que devem traduzir-se para toda a sociedade e seus agentes. Todos sabem como muitas figuras da política e do pensamento valorizaram e exaltaram o sentido do humor, e lamentaram a sua falta. O sentido do humor é uma consciência da nossa limitação de entendimento e de saber agir com as contradições dos nossos próprios projetos.

Este encontro foi organizado pelo Dicastério para a Cultura e a Educação e pelo Dicastério da Comunicação, sob a dinamização do cardeal José Tolentino de Mendonça, e teve como objetivo promover o diálogo entre a Igreja Católica e os humoristas.

Das palavras divulgadas do papa Francisco  poderíamos extrair alguma ideias sedutoras:

– O Riso de Deus. Pergunta Francisco: “É possível rir também de Deus? É claro que sim, isto não é blasfémia, assim como brincamos e fazemos piadas com as pessoas que amamos. A tradição sapiencial e literária hebraica é mestra nisso! Pode ser feito, mas sem ofender os sentimentos religiosos dos fiéis, especialmente dos pobres”. Parece que o drama ou a dificuldade se encontra neste inciso: sem ofender os sentimentos. Esta é a limitação, ou a riqueza, muitas vezes esquecida, de todo o exercício do humor.

– A questão da linguagem. A linguagem do humor é adequada para entender e “sentir” a natureza humana, quando o humor não ofende, não humilha, não cola as pessoas aos seus defeitos. Importa unir realidades diferentes, às vezes até opostas, recorda Francisco.

– Os excessos do poder. “Vocês denunciam os excessos do poder; dão voz a situações esquecidas, evidenciam abusos, apontam para comportamentos desadequados”. Este é um caminho que pode conduzir a uma “ purificação mental”.

– A busca do sorriso inteligente . “Quando conseguem fazer com que sorrisos inteligentes brotem dos lábios, mesmo de um só espectador, vocês também fazem sorrir Deus”. A questão está nas formas do sorriso inteligente…

– O sentido do humor. Recordou a prece de S. Tomás Moro: “Dai-me, Senhor o sentido do humor”.

– Novas variáveis para o mundo. Diz Francisco que os humoristas, nomeadamente os atores, artistas, cartoonistas, escritores, têm “a capacidade de sonhar novas variáveis para o mundo”, através da ironia, que é “uma virtude maravilhosa”. A capacidade de observar e dizer as realidades através do seu contrário procura conduzir à atitude moral, em que a dúvida constitui o início de sabedoria, pela consciência das nossas limitações pessoais.

Da referenciada oração de Tomás Moro, recordada pelo Papa, vale a pena registar esta dinâmica, tão boa para humoristas como para aqueles a quem falta o sentido do humor:

“Dai-me, Senhor, uma alma santa que saiba aproveitar o que é bom e puro, e não se assuste à vista do pecado, mas encontre a forma de colocar as coisas de novo em ordem. Dai-me uma alma que não conheça o tédio, as murmurações, os suspiros e os lamentos, e não permitais que sofra excessivamente por essa realidade tão dominadora que se chama “eu”. Dai-me, Senhor, o sentido do humor. Dai-me a graça de entender os gracejos, para que conheça na vida um pouco de alegria e possa comunicá-la aos outros”.

Do humor para a busca da paz

Curiosamente o papa partiu do encontro com os humoristas para o encontro do G7 (dos países mais desenvolvidos do mundo), onde as decisões necessitam certamente de um forte sentido de humor, para superar os conflitos, as violências e as guerras. Francisco lembrou a importância o sentido da Inteligência Artificial, lembrando que  “a inteligência artificial não é outro ser humano”,  e que “a qualidade das respostas que os programas de inteligência artificial fornecem depende, em última análise, dos dados que usam e da forma como são estruturados”.

Quer dizer, a Inteligência Artificial é como a inteligência humorística: deve ter por suporte e por finalidade a pessoa humana, no seu espírito, na sua capacidade e na sua essencial dignidade.