Ecos do Sameiro…  Por uma Igreja teândrica ao serviço da Humanidade

Por João Alves Dias

No alto do monte Sameiro, como se este lugar fora o de nossa melhor ponderação para este tempo.

Esta a legenda da fotografia da Missa de encerramento do 5.º Congresso Eucarístico Nacional, presidida pelo cardeal Tolentino Mendonça, que o nosso compadre Zé Machado publicou, no facebook, no dia dois de junho.

Segundo relato do 7MARGENS que acompanhou o desenrolar de todo o Congresso – honra lhe seja feita – “Tolentino Mendonça, defendeu – recordando os 50 anos da Revolução do 25 de Abril – uma ‘aliança que garanta o pão do futuro para os jovens hoje cercados pela precariedade e o pão do amor para os mais velhos que não podem ser postos fora da equação social, porque já não são produtivos’. Outra aliança necessária, acrescentou o cardeal, deve assentar na ‘compreensão da diversidade cultural como uma barreira à coletiva maturação do bem-comum. (…)

E “terminou a sua homilia deixando três ‘grandes chamamentos fundamentais’ à Igreja em Portugal: ser uma Igreja eucarística, isto é, que não se coloca a si mesma como prioridade, mas a Cristo; uma Igreja samaritana, ou seja, de proximidade relativamente às ‘alegrias e esperanças, tristezas e angústias’ das pessoas de hoje; e uma Igreja mariana, inspirada na figura de Maria, na sua gentileza, feita de ‘coração desarmado e manso”. (3/6/2024)

Este apelo evangélico já tinha estado presente na reflexão feita na sessão de abertura do Congresso, em 31 de maio, por D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa:

A eucaristia é exigente, não é apenas um rito. Malgrado aquilo que possamos dizer, quem participa na Eucaristia, como é que pode ficar inativo perante a falta de pão em casa, em tantas situações de conflito e de penúria, e [perante] as numerosas crianças que, a cada hora, morrem de fome no mundo?”

Para depois, ao referir como Jesus acolhia publicanos e prostitutas, alargar ainda mais o seu questionamento: “Perante esta atitude inclusiva, ‘que estará Jesus a pensar sobre as nossas discussões e normas’ para as pessoas se poderem aproximar do ‘pão que ele oferece a todos?’ (7Margens 31/52024)

Esta temática abrangente “foi também um dos eixos da primeira conferência do Congresso, a cargo do padre Corrado Maggioni, que preside ao Pontifício Comité para os Congressos Eucarísticos Internacionais.

Segundo ele, ‘na Eucaristia, o pão é dividido para criar comunhão e não divisão’. ‘A Eucaristia celebrada na Igreja – sublinhou ainda – tem de ser expressa fora da Igreja, através de respostas reais às necessidades concretas das pessoas’. (…) É impensável hoje construir uma nova Igreja exclusivamente para a liturgia, sem ter em conta o serviço à fraternidade que este lugar eucarístico implica e exprime’ (idem)”.

Esta sequência de mensagens que vinculam a Eucaristia ao amor fraterno fez-me recuar à década de sessenta do século passado. E recordar…

Os funcionários da Câmara Municipal do Porto organizavam todos os anos a Comunhão Pascal, na igreja da Trindade.

Em 1965, o presbítero convidado para celebrar a Eucaristia, “na homilia, por estas ou outras palavras de similar conteúdo semântico, disse:

Hoje é dia de festa. Mais uma vez a Câmara se reúne para celebrar a Sua Comunhão Pascal. Estão todos de parabéns. Mas este gesto só será autêntico e fará sentido se for um sinal de que, na vida de cada dia, sabeis acolher o Cristo que vos visita na pessoa dos mais abandonados. Ele que disse: ’o que fizerdes aos mais pequeninos é a mim que o fazeis’.

Não basta comungar Cristo na Eucaristia, isso é o mais fácil; é preciso comungá-lo na Vida, e isso é mais difícil. Quando atendeis com carinho o morador do bairro que, a chorar, vos diz que não tem dinheiro para pagar a renda, é a Cristo que estais a acolher, mas quando o recebeis com desprezo e arrogância é a Cristo que estais a maltratar.  Quando prestais atenção aos seus problemas e os procurais resolver é a Cristo que estais a ajudar, mas se o mandais embora sem uma atenção é a Cristo que estais a escorraçar.” (Nos Alvores da Obra Diocesana, pág. 43)

Apodado de ‘padre comunista’, jamais voltou a ser convidado.

Como os tempos mudam…