História das formigas e das abelhas

Por Joaquim Armindo

Num dia destes, de quase verão, encontrei uma amiga minha, colega da Universidade Católica e que já não nos víamos há mais de 30 anos. Foi um encontro emotivo e cheio de conversa. Eis que ela me conta a história das formigas e das abelhas. Dizia então: as formigas possuem uma organização comunitária, senso de trabalho, mas colhem para si e ficam com tudo, mas as abelhas também organizadas, trabalham tanto, até mais que as formigas, mas tendo a doçura de trabalhar para si e partilhar com os outros, e, até connosco o mel produzido e a cera,  assim há dois tipos de pessoas, as que querem mais, as que voam, as que trazem beleza, vão às flores e partilham o que possuem, e as que são como as formigas muito organizadinhas, extraordinárias, incríveis, mas que trabalham para si e para a “sua formigueira” e nada mais, assim o nosso mundo necessita de um “abanão” de pessoas que vão mais longe, voando, lutando pelas suas coisas, mas partilhando o que possuem. Fiquei a pensar nesta história que, aliás, a minha amiga contou ao diretor da escola onde estava colocada em Religião e Moral Católica, tendo sido dispensada, diz ela, era abelha, queria ir de flor em flor e usufruir da beleza da natureza, das coisas, e de falar sobre isso, para ela era falar com Deus, com este cosmos vivenciando a sua beleza, mesmo trabalhando de flor em flor, para “colher o mel” e se alimentar a si e aos outros que “encontra caídos na estrada”. Agora lá está na “sua estrada” colhendo e levando o mel às outras pessoas.

Sinceramente parecia estar a ouvir Francisco nas suas prédicas, que “tanto nos molham”, mas não era a minha amiga, simples e de sorriso aberto, a viver para si e para os outros. E olhem, desculpem, trazer isto para a Igreja e pensar se as “formigas” são necessárias, até para o equilíbrio dos sistemas comunitários, não deixa de ser verdade que as “abelhas” o são e muito. Se queremos “formigas”, muito mais “abelhas”, estas trazem a leveza e o amor das flores para connosco e o prazer de “voar”, como tanto insistia a minha amiga. O “voar” como fez Jesus, de terra em terra, quais “flores”, produzindo frutos de vivência espiritual.

O que será isto senão falar no caminho em comunhão plena, em sinodalidade, como as formigas, certamente, mas muito mais as abelhas. As abelhas também têm uma organização comunitária, que, aliás, respeitam muito, mas vão voando de flor em flor, para o bem comum de todos e todas, não esperam que lhes digam os “caminhos”, porque sabem o bem que fazem “aos outros”, têm sabor de “mel”, como numa terra onde brota “leite e mel”. Como seria bom na Igreja deixar voar as “abelhas” e fomentar o seu “voo”, em vez de sucessivamente querer abortá-lo. Deixemos aqueles e aquelas voar para o bem comum, e não castremos todos e todas da necessidade de “voar”.