Cinema visto pela Teologia (116): “Guerra civil”

Uma leitura do filme “Guerra Civil

Por Alexandre Freire Duarte

Esta obra não é mais um filme pós-apocalíptico. É, isso sim, um brilhante filme apocalíptico bélico que nos abafa numa brutal viagem distópica, sendo focado, intenso, persuasivo, perturbador, provocador e desafiante (até porque está quase sempre a exigir-nos ilações). Um filme que nos mostra, maleável e friamente, os horrores da guerra e a guerra como horror, tocando, sem qualquer toque melodramático, nas nossas emoções a partir de feições díspares: a melancolia, os diálogos, a apatia, a barbárie, o medo, etc.

O quarteto principal de atores é esplêndido e dá-nos fôlego: Dunst vive na ilusão alienada; Moura na adrenalina medrosa; Spaeny na ingenuidade frágil e Henderson na velhice mentora – mas não será que ficamos, também com eles, cativos de deduções? Os efeitos especiais estão por todo o lado, mas o mais impactante são as imagens naturais, as músicas nostálgicas e os silêncios bem medidos que pontilham os momentos de ruína, de decadência, de destruição e de silvos explosivos de armas – ainda mais assustadores devido à filmagem na “primeira pessoa” e toques de toques de fotojornalismo pelo meio.

O que mais mexeu comigo na ficção teórica de Guerra Civil, não foi a violência, não foi a alienação de quem não acreditava no que se estava a passar – seja porque não desejavam acreditar, seja porque não confiavam nos meios de comunicação social –, não foi o lúgubre desfecho previsível a partir de certo ponto. Foi o grau de anestesia psicológica a que, como vemos ao nosso redor em diferentes graus, alguém pode/deve chegar para poder desempenhar com eficácia fria um profissão por si mitologizada e tida como sendo para benefício inultrapassável dos demais – nem que isso o conduza à morte.

Por outras palavras: foi o ver que nós cristãos, em geral e sem admitirmos qualquer forma de ataraxia, não fazemos o que Jesus nos suplicou com o empenho, o denodo e a capacidade de entrega que mostram os quatro jornalistas, representados pelas quatro personagens principais desta obra. Parece que somos caracóis envergonhados, fechados nas nossas carapaças (nada-)protetoras, vivendo a um ritmo que nos deixa para trás face a quem devíamos levar o amor, a alegria, a dignidade e a liberdade que são Jesus.

E por quê? É simples: usualmente não vivemos em comunhão pessoal com Cristo através das Grande-Alegrias (cf. Mt. 5,3-10) que nos modificam à medida que vivemos no âmbito do Amor. Ou seja: não nos colocamos individual e coletivamente em estado de recetividade para (desde uma Eucaristia que nos mostra que não nos daremos sem oferecermos Deus) sermos impelidos para fora pelo Espírito Santo. Pior: mascaramos o que somos com grandes planos que nunca serão aplicados – nem por quem os concebeu.

A realidade é bela e dura, mas estes dois qualificativos precisam de ser vividos em sintonia, caso contrário não tenhamos dúvidas: o totalitarismo ou, pelo menos, alguma forma de autoritarismo bater-nos-ão à porta. E como evitar o mal – a começar pelo do nosso “ego” – se estivermos à defensiva? Impossível. É preciso que o novo coração que nos foi dado e alimentado se fortaleça pouco a pouco, dilatando as nossas capacidades de amar também orientadas pelas expressões de fé que nos comunicam soluções para alguns problemas da nossa vida. Elas não são o passado; são um inefável alimento para hoje.

(EUA e Reino Unido; 2024; dirigido por Alex Garland; com Kirsten Dunst, Wagner Moura, Cailee Spaeny, Stephen McKinley Henderson e Nick Offerman)