Camões e a teologia

Por Jorge Teixeira da Cunha

É muito controversa a abordagem teológica da obra de Luís de Camões. Mas a teologia não pode deixar de se associar ao centenário do seu nascimento. Como fazê-lo? Vamos deixar para outros mais competentes a abordagem da sua obra épica, com todas as concepções que nela estão patentes, seja o espírito da cristandade medieval, seja o paganismo renascentista, seja mesmo o desencantamento do mundo moderno que aí já se pode encontrar. Aqui vamos tentar mostrar como a sua poesia lírica, obra absolutamente genial, mostra um conhecimento do conteúdo das fontes do cristianismo e uma descrição cristã do ser humano que, a nosso ver, actualíssima. Aí se pode identificar a escuta de Deus e à vivência existencial da fé de modo sublime. Não é possível ter em conta a vastidão da obra e, por isso, o que vamos dizer está sujeito à crítica e mesmo à eventual acusação de apreensão pouco objectiva. Mas vale a pena correr o risco.

Começamos por observar a experiência poética, humana e religiosa, nas Redondilhas de “Sôbolos rios que vão/ Por Babilónia, me achei/ Onde sentado chorei/ As lembranças de Sião/ E quanto nela passei”. Para lá da qualidade literária, das concepções filosóficas, da cultura bíblica do poeta, ocorre observar como a estética aparece como centro da subjectividade humana originada e fundada no divino ou simplesmente na vida imanente. Estamos muito longe do voluntarismo dos ideais de conquista ou das concepções construtivistas das ciências humanas dos nossos dias. O ser humano recebe-se a si mesmo de um “cair em si” de deliciosa ressonância crística. É a passividade que está na origem do sujeito, que lhe dá a força de agir, que o instala na palavra e na consciência de si. A tristeza e o sofrimento do exílio são o lugar da graça divina, a fonte da vida, numa afinidade evidente com a experiência mística e orante que são a definição cristã do ser humano na sua forma mais pura. Não podemos aqui multiplicar as citações, mas aconselhamos a ler o poema bastante longo e cheio desta sabedoria e de uma penetrante análise psicológica que não perde pertinência com o passar do tempo.

Elegemos um segundo poema em que está patente uma experiência ética cristã essencial. Estamos a falar das Endechas a Bárbara escrava: “Presença serena/ Que tormenta amansa/ Nela enfim descansa/ Toda a minha pena. / Esta é a cativa/ Que me tem cativo:/ E, pois que nela vivo, / É força que viva”. Sem qualquer forçar do texto, podemos identificar aqui uma descrição da caridade a que Jesus nos iniciou. O cristianismo inovou, como sabemos, a relação entre os seres humanos, tanto a experiência erótica como a da amizade, anunciando-lhe a dimensão da caridade que aproxima o diferente, dando-lhe a possibilidade de comunicar para lá das diferenças insuperáveis do ideal clássico grego. O amor aproxima o diferente, supera as distâncias, esbate os vícios que se interpõem entre homem e mulher, rico e pobre, escravo e livre, autóctone e estrangeiro. Mais do que uma teoria sobre as relações humanas, a vivência do poeta é um exemplo de amor e de amizade para lá de todas as distâncias, de toda a injúria, de todo o racismo e segregação, elitismo e outros defeitos permanentes da cultura comum. A poesia tem todos os sentidos. Esta tem um sentido teológico evidente.

Damos ainda um terceiro exemplo, este de preferência sobre a experiência religiosa propriamente dita. Estamos a falar do soneto “Correm turvas as águas deste rio”. Há aqui uma nítida e realista alusão teológica de sabor moderno. Os deuses deixaram o regimento do mundo e este “anda tão confuso, /Que parece que dele Deus se esquece”. O tempo de Camões, o processo de desencantamento da realidade estava ainda no seu começo. Nós que somos os herdeiros culturais desse processo podemos ver como esta descrição é exacta, tanto no sentido negativo, como no sentido positivo. O sono de Deus é uma prova e uma possibilidade. Preferimos acompanhar o poeta e ver esse adormecimento como forma de encontro com Deus, para lá de todas as teorias, tanto das tentativas apologéticas dos crentes, como das dúvidas agressivas dos descrentes. É suposto que ambos aprofundem o processo de escuta do real, de preferência ao confronto acintoso que existiu e existe ainda hoje.

Esperamos que estes breves exemplos possam mostrar como uma teologia é possível na obra de Camões, para lá das expressões banais com que a sua religiosidade foi vista no passado e no presente. Ele é o orgulho da nossa língua também como escuta de Deus e da nossa humanidade mais autêntica.