Liturgia: Padrinhos e testemunhas

Por Secretariado Diocesano de Liturgia

Com alguma frequência, os párocos são solicitados para admitirem mais do que um padrinho ou mais do que uma madrinha. A este respeito, a norma canónica é inequívoca: «Haja um só padrinho ou uma só madrinha, ou então um padrinho e uma madrinha» (CDC, cân. 873; o cân. 872 admite a possibilidade de nem sequer haver padrinho!). Esta norma, como vimos, data do Concílio de Trento (1563) e estava também presente no CDC de 1917 (cân. 764).

No diálogo com os pais, no esforço de os persuadir a conformarem-se com a norma canónica, o argumento mais usado é o da analogia entre a geração natural que requer a diferença de sexos, e a paternidade/maternidade espiritual. Mas é claro que nesta como em qualquer a analogia a diferença é sempre maior do que a semelhança. Convém não abusar do argumento da geração até porque a Igreja admite que haja um só padrinho ou uma só madrinha (ou até nenhum!). Digamos, simplesmente, que é assim que está determinado e que só a autoridade suprema da Igreja tem poder sobre esta norma de direito positivo.

A dificuldade é que, por vezes, quando o pároco é abordado, os convites já estão feitos e a situação torna-se embaraçosa para a família. Uma via de solução, algo controversa, leva por vezes a sugerir que uma das pessoas propostas seja admitida como padrinho/madrinha e que a outra pessoa do mesmo sexo seja «testemunha». Nem todos os canonistas admitem esta solução. Segundo eles, tal só está previsto para um contexto ecuménico: quando um dos dois não pertence à comunhão católica, poderá ser admitido juntamente com um padrinho católico, mas somente a título de testemunha (cân. 874 § 2). Ora – questionamos – se até um não católico pode ser admitido como testemunha a par de um padrinho católico, por que não poderá um católico (mesmo que pecador) desempenhar idêntico múnus ao lado de um padrinho/madrinha idóneo?

Entretanto, fora de contexto ecuménico, o cân. 875  recomenda que, não havendo padrinho, «haja ao menos uma testemunha, com que se possa provar a colação do batismo». Note-se que a expressão «ao menos» aponta um mínimo e não um máximo. E que, se o motivo está em apontar quem possa testemunhar, então há conveniência em identificar tal ou tais testemunhas no registo do Batismo.

Importa, porém, não confundir os dois múnus: ser padrinho/madrinha não é o mesmo que ser testemunha. O padrinho tem um ministério a desempenhar antes, durante e depois da celebração; a testemunha apenas tem que estar presente e comprovar que o sacramento foi celebrado. Embora possa sentir-se afetivamente ligado à criança batizada, não contrai com ela um verdadeiro parentesco espiritual nem a Igreja a assume como ministra e interveniente na Liturgia e na vida.

Se o diálogo for empático e esta solução for aceite, o acolhimento dos pais que desejam batizar os seus filhos e apresentam mais do que um/a padrinho/madrinha (ou até apresentam padrinhos sem os requisitos canónicos de idoneidade) pode sair do impasse. Na verdade, em muitos casos, apesar de persistir a terminologia do passado, já não se apresentam verdadeiros padrinhos/madrinhas, com presença efetiva na vida do afilhado e capacidade para assumir de forma efetiva o encargo de o/a ajudar, pela palavra e pelo exemplo, a crescer na fé. Em muitos casos, apresentam, simplesmente, «com/padres/madres», amigos mais chegados. Por outro lado já conhecem a figura das «testemunhas» do matrimónio aos quais chamam, candidamente, «padrinhos/madrinhas de casamento».

Verdadeiramente, a questão mais pertinente, em relação à qual se justifica algum investimento pastoral, não é a de quem se pode aceitar como padrinhos/testemunhas mas sim a de saber se há condições para batizar ou não a criança, nos termos do cân. 868 § 1, 2º: «haja esperança fundada de que ela irá ser educada na religião católica; se tal esperança faltar totalmente, difira-se o batismo, segundo as prescrições do direito particular, avisando-se os pais do motivo».

Sobre este ponto talvez valha a pena partir alguma lança em lídimos torneios em que o acolhimento ande de mãos dadas com a solicitude evangelizadora. Porque aqui não vale o «todos, todos, todos». É porque não se leva a sério o Batismo e a Iniciação cristã que temos a situação que temos: muitos batizados (embora com tendência a diminuir) mas poucos (demasiado poucos) discípulos convictos, praticantes, militantes. Não é só devido à evolução demográfica que a nossa Igreja, depois de ter perdido os jovens, está a perder as crianças (e os mais velhos vão morrendo). Deixemos de gastar tempo e energias com padrinhos que rareiam ou não há e preocupemo-nos mais com os Batismos (que também não abundam) dando tempo e atenção aos que os pedem: pais e adultos.