Da história da música para a liturgia: “O Ave verum corpus”

Foto: João Lopes Cardoso

Por Bruno Ferreira*

A versão de Liszt

Se a simplicidade do Ave verum de Mozart é também marcante em relação ao talento teatral do compositor, também no caso de Franz Liszt (1811-1886) encontramos um músico que fez do espetáculo e do virtuosismo a sua marca perante um contexto muito diferente.

Liszt foi um dos maiores pianistas da história e, de certa forma, pode ser considerado o pai do virtuosismo pianístico moderno; personalidade excêntrica e fascinante, foi, no entanto, profundamente atraído pela visão religiosa da vida, a ponto de ter feito as ordens menores em 1865.

A sua versão do Ave verum (https://www.youtube.com/watch?v=CrpbAeDkMiU) é, do ponto de vista do conjunto, ainda mais ascética do que a de Mozart, tendo sido escrita inicialmente para coro misto “a capella”, foi enriquecida com acompanhamento opcional de órgão em 1871; é uma peça curta, mas num espaço reduzido explora um vasto território harmónico. A simplicidade é combinada com a beleza e a força expressiva – a  abertura é bastante inócua, mas as “feridas de Cristo” logo se refletem na harmonia. Esta dá lugar a uma passagem marcada “dolcissimo.” no modo maior, e uma referência à morte produz a tríade de Ré sustenido menor, tudo acabando por regressar a Ré maior, pronto para os compassos finais de “Ámen”.

No entanto, os cerca de oitenta anos que decorreram entre a versão de Mozart e a sua podem ser claramente percebidos no tratamento muito diferente da harmonia; onde os “cromatismos” eram raros e bem escondidos na versão de Mozart, aqui Liszt utiliza-os amplamente para marcar a diferença entre as secções mais dolorosas do texto (“passus”, “immolatus”, “in cruce”…) e as mais doces.

Enquanto Mozart opta por uma escrita muito homogénea, que cria uma atmosfera contemplativa densa e constante, Liszt subdivide o texto em unidades de sentido às quais atribui diferentes domínios emocionais: dor, esperança, tormento, etc. Aqui o texto é “traduzido”, quase palavra por palavra, para a música; em Mozart, é o sentido da peça que é transposto para a canção, renunciando a uma interpretação literal.

*sacerdote e aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma.