Graça e experiência humana

Por Joaquim Armindo

Embora publicado em 1976, a sua 5.ª edição data de 1988, o livro “Graça e Experiência Humana”, de Leonardo Boff, constitui um tratado para a igreja de hoje que se quer sinodal, ou seja, um compromisso total de todos, mas com todos. O livro na sua página 163, começa com um título muito atraente e sugestivo para a igreja “A Experiência do Amor como Gratuidade”, e não consigo deixar de refletir sobre este desafio. Vejamos: “A forma mais densa do encontro é o amor. No amor a graça não só transparece como no encontro; a graça mesma aparece porque se identifica com o próprio amor. Ou o amor é gratuito ou não é amor. Por isso a graça é definida como a comunicação de Deus aos homens. O amor humano é consequência do amor divino; é resposta que a natureza humana dá ao Amor que a criou. Ama porque foi amada primeiro. Porque Deus é amor, todo o amor é divino. Como se dizia em tempos de Homero: em todo o amor há um deus. Por isso o amor é fascinante, enlouquece e coloca a pessoa fora de si. Porque rompe o meramente humano. Aparece o Divino ao homem.” E curiosamente escreve que “A alteridade no amor não está fora da própria pessoa. O outro está dentro da pessoa; é ela mesmo. Esse amor que temos para connosco é a medida do amor para os demais. […] Porque o próximo mais próximo, o outro mais à mão é o “ama a ti mesmo”. Quem se ama, faz do eu um tu. Por isso, o amor é inicialmente um amor-próprio.” Referindo Santo Agostinho: “Se não souberes te amar a ti mesmo, não poderás amar verdadeiramente o outro”.

Boff continua o seu livro desafiando o amor-graça que temos por nós mesmos, numa verdadeira sustentação que tal é um amor-graça pelo outro. “Escreveu Goethe: “um coração que ama alguém, não pode odiar ninguém”; e bem antes dele, Dante, ao falar de sua Beatriz, disse: quando ela apareceu, “não havia mais para mim nenhum inimigo”, portanto “o amor-próprio não é sinónimo de amor egoísta que se centra no eu, descansa no eu e se encaramuja no eu. Esse amor não ama a si próprio assim como o eu próprio é. Como é o próprio na sentença: ame o próximo como a ti próprio?”.

E Leonardo Boff termina este capítulo esclarecendo que “Todo este complexo fenómeno do amor se inscreve dentro do horizonte da gratuitidade. Amor e graça é uma redundância; o homem tem necessidade de amor, mas de um amor livre e gratuito; só este plenifica, enleva, traz felicidade e gozo indiscritível. Só quem sabe do verdadeiro amor pode entender as palavras sagradas do cristianismo: Deus é amor e o amor não morrerá jamais.”

Um livro interessante para quem gosta de saber que o amor é amor-graça.