Cinema visto pela Teologia (115): “Godzilla Minus One”

Uma leitura do filme “Godzilla Minus One

Por Alexandre Freire Duarte

Não sou fã de filmes com “monstros” (embora conheça muitos, em especial “os” que “vivem” em mim) e esta obra saiu na mesma altura em que outras eram mais relevantes (pensava eu). Mas, e graças a uns alunos muito amigos, eis-me aqui com um “Godzilla Minus One” que, reconheço, precisava de já vos ter trazido a estas páginas mais cedo. Este filme não é um esplêndido filme de horror. É um filme esplêndido. Ponto. Um em que os seus 30 a 45 minutos finais seriam suficientes para, se fossem uma produção isolada, serem uma incrivelmente valiosa gema da sétima arte. Garanto-vos.

Regressando às origens do irromper do (aqui demoniacamente assustador) monstro Godzilla, Yamazaki logra equilibrar o horror, o espetáculo, o humanismo e o humor. Admito que o arco narrativo heróico está enferrujado e os diálogos das (e as relações entre as) personagens (todas elas desempenhadas com um brio exemplar) por vezes tornam-se demasiado melodramáticos, mas a tactilidade, a concisão, a proximidade, a criatividade e precisão asfixiantes são extremamente cativantes. Já o drama humano e o horror destruidor a impelem-se mutuamente sobre um inteligente realismo subjacente.

Sendo filho de quem sou, e mesmo antes de uma apreciação mais teológica a este filme, foi-me impossível não ficar agarrado às dores, tão mais desumanas quanto mais depreciadas por quem não as devia ignorar, que o stress pós-traumático bélico acarreta para um militar e para quem foi (mais ou menos) amado por ele e capaz de o amar. Como viver a Paz se se está sempre “na guerra”? E quão tarde admiti que quem ama genuinamente, numa direção certa e reta, não fala do seu enorme amor… apenas ama.

Andámos há décadas a “brincar” com realidades demasiado sérias a nível da exploração do nosso planeta e, sobretudo, do que de mais humano existe em nós – o mais frágil. Uma vez abertas as mais diversas caixas de Pandora, como haveremos de voltar a fechá-las e a encarcerar o que delas saiu? Haverá reconciliação e redenção que o possa fazer, quando em vez do bem, parece que queremos o mal como amigo? Haverá Fé e Esperança que nos façam ver, não as quimeras, mas a valia do peso do nosso desejo?

Ainda acredito que, como cristãos ativos (e não só como cristianizados sociais), podemos ajudar-nos a sermos livres no amor que nos permite agir com vida, consciência, acerto e consentimento. Para isso, estimo ser fundamental não “pensarmos acerca de” (isto é julgar), mas “pensarmos em” (isto é amar), fazendo tudo por amor ao que se vai expondo como sinal da grande vontade do Pai: não elevar a humanidade sem esta; antes alçando-a acima dela, mas com a terra que somos por dentro e na rutila carne de Jesus.

Fazer isto não é ser “cobarde”! É ser “radical”! É irmos às múltiplas raízes do mal (que é sempre uma separação) e aí anunciarmos a Enorme-Alegria da comunhão de todos e de tudo em Jesus. E isto sem hesitações. Mais: e livrando dos seus afincos quem está envolto nas ditas raízes, sobretudo os afincos que impedem a felicidade autêntica. Estão a ver a reconstrução das nossas pessoas? Olhem melhor. Ei-las a crescerem. Onde Jesus chega, tudo torna-se Céu. Porém, já algo parecido ocorre com o amor que vem d’Aquele, por nós passa e nós o gerimos para chegar aos demais, num refazer grátis da sua posição justa ante Deus. “Amor” e “posição justa”: dois traços vitais e existenciais.

(Japão; 2023; dirigido por Takashi Yamazaki; com Minami Hamabe, Sakura Andô, Ryunosuke Kamiki, Koichi Shikishima e Munetaka Aoki)