Da história da música para a liturgia: Solenidade da Ascensão

Foto: João Lopes Cardoso

Por Bruno Ferreira*

A solenidade da Ascensão é uma das mais importantes do ano litúrgico. Caracteriza-se por uma mistura particular de alegria e de melancolia: os cristãos exultam pelo triunfo de Cristo, e porque a sua ascensão com o corpo ressuscitado anuncia também para eles, para os seus entes queridos e para a realidade física da humanidade um destino de vida sem fim; ao mesmo tempo, o próprio facto de Jesus lhes ser tirado causa uma certa tristeza, também porque contribui para pôr em evidência a situação do “já e ainda não” em que vivem os que caminham na fé. Cristo “já” está na vida do Pai, mesmo na sua natureza humana, mas “ainda” não é visível para aqueles que o amam; o cristão “já” é herdeiro dessa vida sem fim, mas “ainda” não entrou nela.

Alguns traços desta complexidade de sentimentos encontram-se no Introito da solenidade da Ascensão, que retoma as frases dirigidas pelos anjos aos Apóstolos que testemunham, imaginamos que de boca aberta, a abertura dos céus; a maior parte dos outros textos litúrgicos do Propium, porém, centra-se mais no aspeto triunfal de um acontecimento que subverte a natureza, realizando as suas potencialidades através da Graça.

Tendo em conta o mandato universal que Jesus confere aos apóstolos imediatamente antes de subir ao céu, dirigido a “todas as nações”, propomos como ouvintes desta festa um excerto do repertório de uma Igreja não latinas, simbolizando a incarnação da mensagem cristã em todas as culturas e línguas.

Croft: God is gone up with a Merry noise

 

Inglês:

 

God is gone up with a merry noise:

and the Lord with the sound

of the trumpet.

O sing praises,

sing praises unto our God:

O sing praises,

sing praises unto our King.

 

 

[Salmo 47(46)]

 

 

 

Tradução portuguesa:

 

Deus subiu com um ruído alegre:

e o Senhor ao som da trombeta.

Cantai louvores,

cantai louvores ao nosso Deus:

Cantai louvores,

cantai louvores ao nosso Rei.

 

O motete de William Croft (1678-1727), God is gone up, (https://www.youtube.com/watch?v=ws7tBmFUFTk) para seis vozes (SSAATB) à Cappella (e em algumas versões com acompanhamento de contínuo) é um belo exemplo musical para a celebração da Solenidade Ascensão do Senhor.  O texto usado é um excerto do Salmo 47 (46).

Croft foi um músico da corte real inglesa no início do século XVIII, sendo também responsável pelo coro de rapazes da Capela Real; assim, a sua produção incluiu muita música sacra para o culto anglicano.

Croft aproveita a deixa oferecida pelo “merry noise” e concretiza-a com um ritmo vigoroso e uma sucessão festiva de vozes, em melodias com uma tendência ascendente e saltos brilhantes e luminosos. Croft imita, embora de forma algo velada, o som das trombetas, sobretudo quando todas as vozes se juntam no mesmo ritmo no final da segunda secção da peça (antes do terceiro “God is gone up“).

No momento seguinte, os sopranos e os altos obliteram as palavras “sound of the trumpet” com uma ornamentação ligeira e alegre, que aumenta ainda mais o ambiente festivo. No verso (a secção central, confiada aos solistas) Croft adopta uma escrita dialógica, pintando os louvores de Deus (“praises”) como vocalizos melodiosos; sobretudo, a certa altura, Croft transforma as palavras “sing praises” numa espécie de fanfarra em que fragmentos musicais muito curtos saltam de uma parte do coro para outra. Finalmente, na terceira parte maior do hino, é de notar a representação da “terra” quase na sua esfericidade, com grandes frases vocalizadas de grande extensão que parecem abraçar o mundo inteiro.

*sacerdote e aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma