«Atestados» de idoneidade…

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

No passado dia 3 de março de 2024, um bispo português tomou a iniciativa de dispensar, na sua diocese, a apresentação pelos candidatos a padrinho/madrinha de batismo dos chamados «atestados de idoneidade». Também na Diocese do Porto consta de alguma(s) vigararia(s) em que os respetivos párocos, de comum acordo, decidiram não se sobrecarregarem uns aos outros com esse tipo de solicitações. Na verdade, esse procedimento burocrático, de escasso valor (sobretudo em meios urbanos e suburbanos), limita-se a endossar para terceiros – os párocos de residência dos aspirantes a padrinhos – a canseira de acolher, acompanhar e discernir  pessoas e situações que o próprio pároco do lugar do Batismo pode e deve fazer sem forçar os interessados a andar «de Anás para Caifás» à procura de um papel que quase sempre é preenchido na base de auto declarações. Então que se apresentem estas, diretamente, ao responsável da paróquia que solicita tais «atestados»! Sendo certo que não é habitual (nem curial) dispormos de «serviços de informação» ou polícia de costumes que nos permitam uma aplicação fria dos cânones, resta-nos aumentar e cultivar a disponibilidade para acolher, dialogar, acompanhar. Não é fácil! Mas as potenciais vítimas da nossa burocracite clerical agradecerão.

Para complicar a tarefa dos pastores, acontece cada vez mais o caso de nos encontramos perante pessoas com «diversas situações de fragilidade ou de imperfeição» (AL 296) que suscitam perplexidade. Porque há duas lógicas possíveis que desde sempre percorreram a história da Igreja: marginalizar ou reintegrar. Como recordava Francisco em Amoris Laetitia, desde o Concílio de Jerusalém que o caminho da Igreja tem sido o de Jesus: misericórdia e integração (AL 296). Nesta e noutras matérias, porventura mais relevantes, não nos podemos exonerar da fadiga do discernimento. Francisco, porém, exorta a perseverar na senda da misericórdia de modo a «ajudar cada qual a encontrar o seu modo de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objeto de uma misericórdia não merecida, incondicionada e gratuita» (AL 297).

Curiosamente, o Bispo de uma diocese italiana (Latina-Terracina-Sezze-Priverno), já há alguns anos que insistia numa pedagogia pastoral mais responsabilizadora para pais e padrinhos. Não deveria ser a paróquia a requerer atestados, mas sim os pais, devidamente esclarecidos, a solicitar a quem convidam para padrinho/madrinha um compromisso de honra ao aceitar missão tão importante e exigente. A proposta talvez seja utópica porque, frequentemente, os pais também são afetados por idênticas «situações de fragilidade ou de imperfeição» no tocante à fé e à vida cristã e, consequentemente, já não escolhem «padrinhos» para os filhos, mas sim «compadres» e «comadres»…

Aos pais que pedem à Igreja o Batismo de algum filho, depois de elucidados sobre a missão e requisitos dos padrinhos de forma a orientar, se possível, a escolha dos mesmos, é oferecida a minuta de um compromisso de honra a subscrever pelo padrinho/madrinha pretendido(a):

Os senhores… [nomes dos pais do batizando], pais de… [nome do batizando], dirigiram-se a mim [nome do padrinho/madrinha] pedindo-me para colaborar no crescimento cristão do seu filho [ou da sua filha], assumindo o papel de padrinho/madrinha no Batismo que se celebrará na paróquia de… [lugar e data da celebração]. Estou consciente de que este convite não é apenas um ato de cortesia. É-me pedido um envolvimento sério e contínuo na vida de… [nome do batizando] para que amadureça na plenitude da fé, também com a minha ajuda. É um papel que, se me honra, me faz perceber também a responsabilidade de participar na dimensão paternal e maternal da Igreja. Sei, por isso, que me devo comprometer ainda mais em viver com coerência a fé cristã, deixando-me guiar pela palavra do Evangelho, através de uma experiência de Jesus na minha comunidade paroquial, de modo a ser um verdadeiro exemplo de vida. Ao aceitar o convite invoco a ajuda de Deus para que eu possa ser um/a guia capaz e boa testemunha do Evangelho. [Segue-se a data e a assinatura]

O teu padrinho / A tua madrinha.

Sugere-se que este compromisso de honra, se possível, seja subscrito num encontro de preparação da celebração do Batismo e entregue à família do batizando, não sendo requerido qualquer visto do pároco do padrinho ou madrinha.