Cristãos lutaram pela liberdade em Portugal

Por Joaquim Armindo

Tantas vezes nos parece que só os cristãos e cristãs católico-romanos estiveram contra o estado de opressão que se vivia sobre o regime do Estado Novo. Tal, contudo, não é verdade. A história um dia dirá que outros cristãos e cristãs viram as suas vidas revolvidas por defenderem o Evangelho da Paz e da Justiça. Lembro-me, por exemplo, do bispo Luís Pereira da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, ter a sua casa invadida pela polícia política – a sua casa era em Vila Franca de Xira e chamava-se Quinta do Bacalhau – e o seu filho preso, curiosamente fazendo companhia ao Padre Mário de Oliveira, da Diocese do Porto. Motivou um protesto da embaixada inglesa, dado que a sua esposa era inglesa. Recebeu, depois, um bilhete de Marcelo Caetano a pedir desculpa, o que ele considerou de “velhacaria”. Lembro-me das ações do então leitor/presbítero que depois foi sagrado bispo Fernando Soares ter uma posição clara contra o regime vigente e a favor da multidão dos pobres (vemo-lo em manifestações de rua, ao lado dos trabalhadores). E não só, muitos dos jovens da igreja lusitana – é verdade ao lado de católicos e ateus – e da igreja metodista na luta contra a guerra colonial. Dois exemplos, o trabalho realizado pelos Jovens do Torne, que viu o seu jornal chamado esboço, proibido pela censura e de circular pelo correio (CTT); ou o seu trabalho conjunto com metodistas (católicos e ateus) na aldeia de Valdosende no Gerês, ensinando o povo a ler e a ter uma posição crítica, enquanto cavavam as estruturas para o templo metodista. Alguns deles castigados foram, indevidamente, obrigados a com bater na Guerra Colonial.

O atual bispo Jorge Pina Cabral, da igreja lusitana divulgou uma mensagem a lembrar que “No cinquentenário da revolução do 25 de abril fazemos memória de todos aqueles, homens e mulheres, que em circunstâncias difíceis e de opressão, assumiram, com risco da sua própria vida, a luta pela liberdade e o fim do regime totalitário que oprimia o povo português. A sua luta foi generosa e sacrificial em prol de um destino coletivo mais feliz e livre. Aquilo que cada um(a) foi capaz de assumir e de realizar ao serviço dos demais, contribuiu fortemente para uma mudança que a todos beneficiou. Naquela manhã de um abril primaveril abriram-se caminhos e veredas que juntaram e irmanaram um povo que alegremente celebrou e cantou a liberdade há tanto tempo desejada no coração e sempre reprimida.”

Naquela mensagem Pina Cabral lembra: “A preciosa herança que nos foi confiada e que celebramos nesta data festiva, exige a consciência, de que a democracia é por natureza um processo sempre inacabado, que demanda o empenhamento individual e coletivo na busca das melhores soluções, para as exigências e desafios que em cada tempo e em cada lugar sempre se nos colocam.” E que: “Celebrar abril à luz da fé é assumir a verdade que liberta e que promove a humanização de todos. Cabe-nos, pois, celebrar a liberdade e assumir o porvir enquanto tempo possível de novos horizontes e possibilidade para todos.”

Estes factos, ficam na história, da posição ecuménica da luta encetada, por uma vida livre!