Cinema visto pela Teologia (109): “Apocalipse Now”

Uma leitura do filme “Apocalypse Now

Por Alexandre Freire Duarte

Qual o melhor filme da década delimitada por 1970 e 1979? O título deste texto já o diz. Egomaníaco, brilhante, estranho, inexcedível, provocativo, pulsante, surrealista, operático, violento. “Apocalypse Now é tudo isto, sem dúvida, mas é, sobretudo, uma viagem rio/vida acima que une um conjunto de cenas magistrais. Cenas que, mais do que ideias, mostram vivências que, de um modo crescentemente premente de ansiedade e para a maioria de nós, são de um “outro mundo” que roça o cómico-psicadélico. Seja como for, esta obra é um manjar para todos os nossos sentidos no expor o horror da guerra e o extravio psicológico de quem a vive, e só por isso merece o nosso tributo.

Os atores são todos de primeira linha, apareçam duas horas ou dois minutos no ecrã. Duvall (paranoico, alienado, perturbador), Hopper (jogral, quimérico, camaleónico, bajulador e traiçoeiro) e os demais artistas secundários são impecáveis nos seus limites. Mas são Sheen (torturado, quase totalmente perdido numa missão que cumpre até se esvair) e Brando (fascinante, loucamente lúcido na sua enigmática “anestesia” e quase só sendo uma voz… mas que voz) que seguram as pontas a esta obra. Enfim, a música sublinha o surreal e a fotografia é esteticamente impactante na luz, escuridão e sombras.

“O horror” e “É o fim” são duas expressões sincopadas que mostram a enormidade do facto de que toda e qualquer guerra é um inferno para quem a vive. Este filme não mostra o horror: é uma espécie de horror que levanta a ponta sobre o ninho de vermes que saem do nosso “ego”. Vermes que nenhum mumbo jumbo psicológico nos mostra, pois fica sempre aquém da pugna entre o amor e o desamor que há em nós. Todos nós temos falsos deuses idolatrizados que precisam de ser extintos. Mas amando. Amando…

A isto acresce que o rio da vida, quando seguido até à sua Fonte, não é neutro. Ele vai-nos apertando de múltiplos lados, às vezes com rostos francos na sua deslealdade, às vezes com rostos falsos na sua brandura. Não admira que tantos cristãos, e em especial os que não o são, sintam que não podem sobreviver senão com um pouco de loucura. Todavia, os primeiros, conhecem a “santa loucura”: a do amor que cede e excede, estima e sobrestima, passa e sobrepassa. A “insânia” de saborearmos o que só pressentimos.

Querer fazer daquele ninho a nossa casa é perdermos a batalha da nossa vida, mas devemos ver quem nele habita para o confrontar, mas nunca sem Jesus nem uma forte vivência comunitária. No mundo exterior, o bélico ou psicológico “matar ou morrer” só nutre o nosso egoísmo – algo que abomina a Deus. Já no nosso mundo íntimo, tal lema tem um peso específico por mais penoso que seja endireitar as costas a um coração que sempre viveu dobrado e se estivermos firmes num essencial que não é um mínimo.

Mas como vencermos se só contamos com o amor? Usando a força do “inimigo”, desequilibrando-o quando vier contra nós. Jesus não ensina a “não-violência” ghandiana, antes esse amor que sana o adversário. Seja em geral, seja neste caso dos vermes do “ego”, pois o que é o egoísmo senão um amor tresmalhado? Aproveitemos o referido desequilíbrio para guiarmos tal “ego” para onde ele é libertado sua loucura centrípeta. Abracemos a nossa verdade e os demais mediante dar-nos e ensinando estoutros a estenderem as mãos dos seus corações para Deus e não para os Seus escuros sucedâneos.

(EUA; 1979; dirigido por Francis Ford Coppola; com Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall, Laurence Fishburne, Albert Hall e Dennis Hopper)