Sons da Madrugada – ‘Mãe é Mãe’…

Por João Alves Dias

No ‘Dia do Pai’ publiquei no facebook a fotografia de meus pais com a legenda: ”Neste dia, e porque não os vejo separados, nos meus, a homenagem aos vossos pais”.Entre os comentários, um houve, vindo dum membro do ‘Real Clube de Retorta’, que me trouxe os sons doces da madrugada.

O seu autor, António de Sousa Moreira que, desde menino, os conheceu, dizia:

“Hoje é o dia do pai, mas olhando para esta foto vêm-me à memória recordações da minha infância e nelas estão sempre presentes o Ti Zé Tanoeiro e a Ti Maria Rosa, a pessoa mais bondosa que eu conheci até hoje”. 

E, eu, em ‘Dia da Mãe’ por entre neblinas de saudade, recordo tempos já bem longínquos…

Os ponteiros do relógio

Em Recarei, no dia 5 de fevereiro, celebrava-se anualmente a festa de Sant’Águeda com um afamado ‘concurso de bois’ a que os lavradores da redondeza não faltavam.

Num desses dias, fiz uma asneira que poderia ter-me custado uma boa ‘sapatada’.

Meu pai tinha um relógio de bolso pendurado na parede ao lado da sua cama.

Sem minha mãe ver, eu, nas minhas traquinices infantis, subi para a cama e peguei no relógio que estava sem vidro. Movido pela curiosidade, quis ver se os ponteiros andavam. Mas forcei-os tanto que parti o dos minutos.

Minha mãe foi a correr a casa do António da Lamosa, relojoeiro, pôr um ponteiro novo. Como não tinha um igual, colocou um outro bem diferente…

Quando o pai chegou, com as rosquilhas da Sant’Águeda, ninguém se descaiu e ele não deu por nada: só via as horas à noite e a lâmpada era fraquinha para não gastar eletricidade… Se alguma vez reparou, nunca disse nada…Mãe é mãe…

A reza à noite

Após a ceia, mesmo quando o corpo cansado pelos trabalhos no campo pedia cama, sempre se rezou o “terço”. Minha mãe assumia o papel de matriarca. Não aprendeu a ler nem a escrever, mas conhecia bem a Bíblia. Iniciava cada dezena do terço com a meditação dos mistérios. E, no final, havia sempre uma Ave-Maria pelos recém-falecidos. Quando morria um vizinho, já sabíamos que tínhamos mais um cliente…

Em 5.ª Feira Santa, porém, o “terço” era substituído por outra oração de que eu gostava mais porque era mais breve….

A Mãe começava:

Minha alma tem-te em ti, / Que Jesus morreu por ti. / Ao Campo de Jerafaz, irás, / Teus inimigos encontrarás e lhes dirás:/ -Vai-te arreda, Satanás, / Que minha alma não terás / Nem parte, nem quinhão terás. / Porque em Quinta Feira Santa, / Ao pé da bela cruz / Cento e cinquenta vezes disse: – “Jesus me salva”.

E todos dizíamos: – “Me salve Jesus”. (repetia-se 150 vezes)

E a mãe continuava: – “Minha alma firme e forte / Passarás pela hora da morte /

 Passarás e não morrerás, / Teus inimigos encontrarás e lhes dirás: / -Vai-te

arreda, Satanás, / Que minha alma não terás / Nem parte, nem quinhão

terás, / Porque em Quinta Feira Santa / Ao pé da bela cruz / Cento e cinquenta

vezes disse: – “Jesus me salva”.

E nós repetíamos: – “Me salve Jesus”. (150 vezes)

Recordei esta oração no ano 2000, quando, em Jerusalém, visitei o vale de Cedron, também conhecido por vale de Josafá, ‘onde Deus julgará’, que, penso, será o ‘Campo de Jerafaz’.

Em dias de trovoadas

Quando os raios começavam a riscar o céu e os trovões se alongavam pelas quebradas da serra, minha mãe acendia uma vela da ‘Senhora das Candeias’ na ‘sala melhor’, nós fazíamos silêncio e ela cantava o ‘Magníficat’, em latim. Aprendera-o em criança.  Era o nosso para-raios. A verdade é que nunca nenhum nos atingiu. Que segurança nos dava. A trovoada não nos metia medo.

‘A ti’ Maria Rosa matou-me muitas vezes a fome’

Estávamos no tempo da guerra. Muita miséria…Campeava o mercado negro dos bens alimentares por causa do ‘racionamento’ imposto por Salazar. Quem tinha dinheiro, ia-se arranjando. Quem não tinha…

Lavradores, a panela de caldo adubado com pingue e a broa que a mãe cozia nunca nos faltaram.

No ‘barracão’, tínhamos um quarto onde podiam pernoitar os pedintes que andavam de terra em terra. E a mãe, antes de se deitar, levava-lhes uma malga de sopa e um bom pedaço de pão.

E às crianças que, à noite, iam com as mães ao leite, a Ti Maria Rosa sempre lhes dava um bom naco de broa.  – “Coitadinhos, eles passam tanta fome…”, dizia ela.

No seu velório, muitos homens, então bem na vida, choravam e diziam: – “Esta mulher matou-me muitas vezes a fome”.

Mãe é flor sem tempo.