Fundação AIS: O mosteiro de portas abertas (c/ vídeo)

Ajudar a Igreja na Ucrânia, um compromisso da Fundação AIS

Em Solonka, junto a uma estrada movimentada, existe um mosteiro beneditino. Cá fora, com o ruído dos carros, é difícil imaginar o silêncio dos claustros, do jardim, dos campos de cultivo das irmãs. Mas desde há algum tempo, esse silêncio foi interrompido pelo riso de crianças e pelas conversas dos adultos que agora vivem por lá. São deslocados internos, pessoas que fugiram da guerra e que as irmãs acolheram com todo o amor. É o caso de Luba e Vasyli, casados há quase 40 anos e que nem sabiam rezar…

Quando chegaram, Luba Petrivna e Vasyli Pawlovych estavam assustados. Os cabelos brancos dele e os cabelos brancos dela, que uma coloração artificial não disfarça, revelam que já são, pelo menos, sexagenários. Pouco depois da guerra ter começado na Ucrânia, em Fevereiro de 2022, com a invasão das tropas russas, milhares de pessoas viram, de um dia para o outro, as suas casas serem bombardeadas, serem destruídas. De um dia para o outro, a artilharia russa desfez vidas, desfez sonhos, reduziu a escombros tudo o que muitas famílias possuíam. De um dia para o outro, milhares de pessoas como Luba e Vasyli tiveram de se fazer à estrada à procura de abrigo, praticamente com a roupa que traziam vestida. Passaram a ser deslocados dentro do próprio país. Quando a guerra começou, as notícias dos ataques dos bombardeamentos, das cidades sitiadas, deixaram revoltadas as Irmãs Beneditinas de Solonka. E elas decidiram que tinham de fazer alguma coisa. Então, estas religiosas contemplativas optaram por algo absolutamente radical: abrir as portas do mosteiro, privando-se do silêncio e da solidão, para acolherem pessoas que fugiam por causa dos combates, da violência, da guerra. Desde que começou a invasão das tropas russas, a 24 de Fevereiro de 2022, já dezenas de famílias passaram pelos claustros das Irmãs de Solonka, na região de Lviv. “É assim que vemos a nossa missão agora”, dizia-nos a Irmã Klara, ainda a guerra tinha apenas começado.

Acolher, confortar, dar abrigo…

Entretanto, já passaram muitos meses, mas nada mudou nessa vontade, nessa decisão radical das irmãs. Acolher os que chegam, recebê-los de braços abertos, dar abrigo a estas famílias em sofrimento, confortá-las… passaram a ser palavras comuns nos pensamentos destas mulheres consagradas a Deus. “Quando a guerra começou, decidimos unanimemente que aquilo que poderíamos fazer pelas pessoas, pelo país, era abrir as portas do nosso mosteiro a quem fugia da guerra. Há ano e meio que acolhemos refugiados”, relata agora a uma equipa de reportagem da Fundação AIS a Irmã Bernadette Venglovska. Muitas pessoas passaram, entretanto, pelo mosteiro. Ao longo de todo este tempo, as irmãs escutaram já muitas histórias, viram o horror estampado nos olhares de quem presenciou a violência da guerra no seu estado mais puro, comoveram-se com as lágrimas dos refugiados. Os claustros do mosteiro são, agora, o sinal de que por ali vivem outras pessoas que não apenas as irmãs. Há roupa estendida, ouvem-se risos e brincadeiras de crianças, e no refeitório há pessoas comuns, casais, homens e mulheres. São todos hóspedes. As próprias irmãs muitas vezes estão lá, dando comida aos mais pequenos, acarinhando todos estes habitantes improváveis do mosteiro. Luba e Vasyli fazem parte deste grupo. Eles ajudam nas tarefas do dia-a-dia, para estarem ocupados, mas também como uma forma de agradecimento pela hospitalidade. Hoje, os dois, casados há 37 anos, já conseguem sorrir, já estão serenos. Mas quando chegaram vinham assustados. “Tal como a maioria dos deslocados internos, quando fugiram da guerra, estavam assustados e escondiam-se do mundo”, recorda a Irmã Bernadette. Mas tudo mudou com paciência e muito amor. E oração também. “Chegaram aqui e começaram a rezar”, recorda a religiosa beneditina. “Esta família foi uma das primeiras a abrir verdadeiramente o seu coração a Deus”, acrescenta a irmã. Luba confirma estas palavras. E até agradece a Deus terem um dia entrado naquela casa, terem sido acolhidos por aquelas irmãs. As suas vidas transfiguraram-se. “Graças a Deus que viemos aqui parar. E que nos ensinaram a ser gratos a Deus e a procurar Deus na nossa vida. O meu marido e eu não nos casámos pela Igreja. Para nós, isso não tinha muita importância. Quando aqui chegámos, a este mosteiro, foram as irmãs que nos ensinaram a rezar…”

O apoio da Fundação AIS

Neste momento, a guerra continua e não há perspectivas de qualquer acordo que leve ao fim dos combates. Para Luba e Vasyli o regresso também é improvável. Vieram de Kramatorsk, na região de Donetsk, uma das mais bombardeadas. O mais certo é a sua casa ter sido já destruída. Tanto para eles como para todos os que vivem no mosteiro, não vale a pena fazer grandes planos. Num país em guerra é sempre uma incerteza prever como vai ser o dia de amanhã. Para as irmãs, o mais importante é poderem continuar a acolher os que precisam, os que perderam tudo o que tinham, os que precisam até de refazer as próprias vidas. Para as irmãs, o mais importante é terem transformado o silêncio do mosteiro numa grande casa de Deus. Elas contam com a generosidade dos benfeitores da Ajuda à Igreja que Sofre que permite suportar muitos dos gastos relacionados com a presença de tantas pessoas, de tantas famílias. Gastos com a energia, com os alimentos, com tudo… “Quero agradecer a todos os que nos ajudam e apoiam com a oração”, diz a Irmã Bernadette à equipa da Fundação AIS. “É muito importante nestes tempos difíceis não estarmos sozinhos. Deus faz grandes coisas”, acrescenta. E Deus seguramente que estará encantado com este mosteiro beneditino que tem agora as portas abertas a quem precisa de ajuda…

Paulo Aido