O Cinema visto pela Teologia (108): “Uma vida singular”

Uma leitura do filme “Uma Vida Singular

Por Alexandre Freire Duarte

Há filmes em que, mesmo que saibamos o que sucederá ao seu arco narrativo, ainda nos conseguem surpreender. “Uma Vida Singular é um desses casos. Apesar de ser tão convencional, despretensioso, direto e discreto como a figura principal que retrata, deixa-nos presos ao que percecionamos graças à tensão, à emoção, à qualidade e à sensitividade que são colocadas num drama histórico baseado em feitos reais. Admito que o que vemos é, às vezes, condescendente, tem reviravoltas desnecessárias e não toca senão de modo tangencial na motivação do que aquela figura realizou. Mas é inspirador.

Apesar de separados por quase 50 anos – no filme e na vida real – Hopkins e Flynn são quase um na representação da supradita figura: desde os maneirismos ao resoluto autoapagamento controlado. Isto fá-los tocarem-nos pelas suas vulnerabilidades e franquezas que elevam as suas articulações e desempenhos a níveis prodigiosos. Bonham Carter é esplêndida no seu teatralismo e indomabilidade. Com as câmaras a funcionarem de modos desiguais nas duas épocas retratadas, as minúcias e as músicas cuidadosas mas comedidas, temos a prova de que o parco é, muitas vezes, imenso.

A imprensa é o que é. É, já dizia Chesterton, dizer que morreu Lord Broccoli a quem não sabe quem é Lord Broccoli. E se a humanidade e o nosso mundo estão tremendamente feridos, isto não deveria impedir-nos de reconhecer que também são, respetivamente, realidades extraordinárias e fascinantes. E isto num cenário que também é de graça, por mais que se queira reduzir esta a algo meramente humanista, sem desejo de se admitir uma realidade repleta de amor, aconchego e respeito divinos que se tornam nas asas do amor de caridade que conduz à Vida sobre o vento do Espírito Vivificador.

Com tais asas, as missões mais humildes e altruístas são as que revelam ter uma porta para o real conforme é sonhado e querido por Deus. Não mais um real ferido, mas sarado por Ele e pelas nossas mãos, as nossas palavras e os nossos olhos. Tudo isto também cuida as fadigas, inseguranças, quedas e desordens ao nosso redor conquanto feito de modo vital para que o reparado também se faça nosso. Mas sem olharmos para este “nosso”, pois só alimentaria uma “espiritualidade” gourmet eivada de egoísmo.

Outra conexão de “Uma Vida Singular” com Chesterton é o valor dado não ao herói, mas, como me considero, à pessoa comum: a que tem uma porção sólida de uma filosofia de vida sadia e honrada (cada vez mais acossada); a que não cede ante burocracias; a que vê em cada ato de bondade gratuita uma boa ação, que não requerendo ser agradecida nos foca, não nos olhos, mas no olhar (que é sempre o reflexo do mais íntimo pousado num ponto material em que nos fixamos, qual síntese de partes unidas).

Mas os traumas não andam longe de quem deseja viver assim: há sempre uma aguda perceção do tanto amor que não foi feito ou que foi feito de uma forma incompleta quando se tentou ajudar quem precisava desse amor. É: toda a nossa vida é parabólica e umas vezes somos ovelhas (cheias de respeito, decência, bondade e valores que guiam as nossas motivações em prol dos demais), enquanto noutras vezes, somos bodes (cheios de duplicidades, mentiras e anti-valores que nutrem turbilhões de um narcisismo fatídico).

(Reino Unido; 2023; dirigido por James Hawes; com Anthony Hopkins, Lena Olin, Johnny Flynn, Tim Steed e Helena Bonham Carter)