Da história da música para a liturgia: Domingo V da Páscoa

Foto: João Lopes Cardoso

Philips: Christus resurgens

Por Bruno Ferreira*

 

Latim:

 

Christus resurgens ex mortuis,

jam non moritur,

mors illi ultra non dominabitur.

Quod enim mortuus est peccato,

mortuus est semel,

quod autem vicit, vivit Deo,

Alleluia.

Mortuus est enim propter delicta nostra:

et resurrexit propter

justificationem mostram,

Quod autem vivit, vivit Deo,

Alleluia.

 

[Romanos 6,9-10; 4, 25]

 

 

 

Tradução portuguesa:

 

Cristo ressuscitado dos mortos                                             já não morre:

a morte já não tem poder sobre ele.

Quanto à sua morte,

morreu para o pecado de uma vez por todas; agora, porém, pelo facto de viver, vive para Deus. Aleluia.

Morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação.

Agora, pelo facto de viver, vive para Deus.

Aleluia.

O texto de Christus resurgens, prescrito como verso aleluiático para este domingo, foi de facto utilizado também como motete para o Domingo de Páscoa: apesar, portanto, do tempo já decorrido entre a Páscoa e o Quinto Domingo, esta peça musical contribui também para criar uma ponte ideal.

Um dos compositores que musicou belamente este texto foi Peter Philips (1560-1618), um dos grandes compositores ingleses que viveu durante o período elisabetano, juntamente com, entre outros, William Byrd (que foi seu professor) e Thomas Tallis. Tal como este último, Philips era também católico, num contexto de grande incerteza confessional e, por vezes, de amarga perseguição; no entanto, Philips optou pelo caminho do exílio em vez de procurar um modus vivendi na sua terra natal. Depois de um período passado na Flandres, viajou muito, passando um tempo considerável em Roma (onde o encontramos no colégio jesuíta que formou os missionários enviados para restaurar a Inglaterra no catolicismo, e cujos membros incluíam muitos mártires, alguns dos quais foram mais tarde canonizados) e noutras grandes capitais europeias. Com a morte da mulher e dos filhos, Philips torna-se padre, coroando talvez uma atividade musical muitas vezes imbuída de valores e temas religiosos.

O seu Christus resurgens (https://www.youtube.com/watch?v=Mmrr-OfP3QU)  (para coro SSATB) é uma peça de requintada elegância estilística, em que a alegria pascal se exprime nas numerosas cascatas de notas rápidas, nos ritmos incisivos como o do incipit, quase reminiscente do toque do sino pascal, nos amplos saltos ascendentes que dão impulso à melodia, e nos generosos âmbitos melódicos em que as vozes se movem.

Uma segunda secção é identificada com o aparecimento das palavras “iam non moritur“, na qual, ao contrário do início, as diferentes vozes entram em intervalos temporais muito mais próximos, e com fragmentos melódicos de extrema simplicidade. Se as vocalizações anteriores simbolizavam assim a felicidade, transformando-a num canto quase sem palavras – devido à fragmentação do texto imposta pelas próprias vocalizações – aqui, pelo contrário, a combinação de uma silaba por nota permite uma perfeita inteligibilidade e serve para reiterar o conceito de alegria simples, quase infantil.

A referência à morte que não tem poder sobre Cristo é sublinhada pelo uso de harmonias alteradas, que intervêm para quebrar a eufonia das passagens precedentes; a secção conclusiva, por outro lado, é inteiramente dominada pela palavra “vivit” que, já repetida duas vezes no texto paulino, se torna uma espécie de sinal pervasivo, que as diferentes vozes transmitem umas às outras, não deixando praticamente nenhum momento sem que pelo menos uma voz a entoe. Note-se também a pausa “estratégica” que Philips impõe às vozes superiores antes de as fazer regressar solenemente às palavras “et ressurrexit“, que adquirem assim um relevo rítmico, melódico e tímbrico verdadeiramente inesquecível.

No “Alleluia” final, Philips adopta várias tácticas composicionais que visam exprimir a felicidade: ritmos claros, variedade tímbrica, movimentos vivos e suaves a nível melódico, baixos que se apoiam firmemente nos graus da tríade: até que, na grande cadência final, todas as vozes se unem num fecho grandioso e solene.

*sacerdote e aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma