Para Memória … A Igreja e o ’25 de Abril’ – (IV) – Lisboa – “Notáveis exceções”  

Por João Alves Dias

(Continuação do número anterior)

Ao celebrar o ‘25 de Abril’, lembramos ‘cantores da resistência’ como Zeca Afonso, Manuel Freire, José Mário Branco, Sérgio Godinho, entre muitos outros.

E alguns de nós recordamos o P. Fanhais, um presbítero de Lisboa que, em 1969, Zeca Afonso levou ao programa Zip-Zip e, em 1995, recebeu a ‘Ordem da Liberdade’.

No dia 13 de maio do ano passado, 7Margens publicou uma entrevista com o título: “Francisco Fanhais – ‘Jesus Cristo é central para mim” em que o cantor fala da sua vida e assume, sem peias, a sua condição de cristão e o seu passado de presbítero.

É uma afável conversa que merece ser lida na versão integral e de que, com vénia, respiguei apenas algumas das falas.

–  Cristão comprometido

“Olho com muita alegria para o Papa Francisco que puxa pela Igreja e puxa por todos nós (…). Nessa perspetiva, sinto-me interpelado porque, tendo sido padre no ativo, não deixo de me considerar cristão (…) Por isso, sinto-me cristão comprometido; nunca escondi, nem nunca escondo, onde quer que vá, que sou cristão.”

Razões para o seu agir

“Eu estava no seminário em 1961 quando começou a Guerra Colonial. E aí assim pôs-se-me a questão: como é que um cristão encara a Guerra Colonial? (…)  Depois, foi o contestar a Guerra Colonial. Contestar a ligação estreita e a cumplicidade perfeita entre a hierarquia católica e o Estado.”

O exemplo do P. Felicidade Alves,

“Entretanto, aparecem muitos outros colegas, muitos outros, com quem a gente conversa. Alguns que são mais dinâmicos, que puxam mais por nós, que são como leões que lutam de uma maneira perfeitamente forte e aguerrida e com toda a fundamentação. Foi o caso do padre Felicidade Alves (conheci-o pessoalmente em 1965, quando, numa ‘semana de pastoral’ no seminário da Sé orientada pelo, então, P. Vieira Pinto, nos veio falar sobre a organização centro-capilar da sua paróquia de Belém, em Lisboa). Ele foi aquele que puxou por nós, que denunciou, que entrou em conflito com a Igreja, justamente por denunciar esta cumplicidade.”

– A dupla motivação

Por um lado, como cristão, que não queria deixar de ser, que nunca deixei de ser, que espero nunca deixar de ser. Por outro lado, a dimensão de cidadão que, ao ver o que se passa, ao ver a situação, esta cumplicidade perfeita, não se pode calar também. (…)

(…)  “As coisas marchavam em conjunto, porque sendo um cristão que quer ser cidadão de corpo inteiro também, apanha dos dois lados, sofre por tabela dos dois lados. E isso aconteceu. “

– A suspensão do sacramento da Ordem

“O P. Felicidade, entretanto, foi excomungado, entrou em conflito com a hierarquia e resolveu casar-se numa cerimónia religiosa, não oficial, digamos assim, num monte que fica em frente da ponte de Vila Franca Xira. Foi aí que houve uma cerimónia, um piquenique, onde, às tantas, ele e a Lisete se casaram. E nós estávamos lá presentes, um grupo de pessoas. E então, na sequência dessa minha participação no casamento, eu fui chamado ao tribunal eclesiástico e a pena que me foi aplicada foi a de suspensão do sacramento da Ordem.”

– Mais duas proibições

“Eu dava aulas de Moral no liceu do Barreiro. A gente falava de tudo, e até de religião. Fui também suspenso de professor de Moral.

Comecei a cantar coisas que não estavam de acordo com aquilo que a Censura deixava, com a teoria oficial do Governo sobre as colónias, etc.. Proibido de cantar. Fiquei com essas três proibições.”

– A luta pelo sustento…

“(…). Portanto, a certa altura, mais concretamente, no princípio de 1971, eu estava simplesmente sem saber o que é que havia de fazer à vida, não é? Não tinha muitas saídas; cheguei a pensar em vender enciclopédias.

(…)  Nada, não tinha nada. E, portanto, andei a ir buscar carros a Espanha. Havia uma companhia que alugava carros (…)”.

– E volvidos cinquenta e dois anos

”Agora, sinto-me perfeitamente à vontade, de continuar a ser cristão e não o negar a quem quer que seja. Mesmo que muitas vezes me continuem a chamar Padre (…)  E, não me incomoda nada…”.

É uma lufada de ar fresco e um testemunho de autenticidade de quem, em tempos de opressão e repressão, ousou cantar: 

“Porque os outros se mascaram, mas tu não. (…)

Porque os outros têm medo, mas tu não (…)

(Sophia de Mello Breyner / Francisco Fanhais)