O pós-25 de abril na Voz Portucalense

Por M. Correia Fernandes

Depois de termos lançado um olhar sobre o tratamento dado ao acontecimento de 25 de abril de 1974, será agora oportuno e significativa olharmos o quadro que se lhe seguiu.

O número seguinte (11 de maio de 1974) não embandeirou em arco. Procurou manter uma análise calma dos acontecimentos e um equilíbrio judicativo, expresso nas palavras do editorial: “O povo português, no seu conjunto, está tão bem preparado para o uso das liberdades e direitos essenciais, como outros povos civilizados. Com um pequeno treino poderá caminhar, a passo europeu… O povo, o óptimo povo português compreende suficientemente que a liberdade humana é relativa, como relativo é o próprio homem; que os direitos de uns têm que se harmonizar com os direitos dos outros; que, de uma parte não pode haver só direitos e, de outra, só deveres; que sem leis de trânsito é impossível circular nas estradas da civilização”.

E advertia, certamente já conhecedor de movimentos e atitudes oportunistas, em que o que designa por “escumalha”, “como se fosse governo ou super-governo, nomeia ou desnomeia, faz e desfaz, como lhe apetece, humilha e ofende os cidadãos mais dignos”.

De resto, publicava-se nas páginas centrais uma reflexão de Manuel Vieira Pinto, “Bispo da Igreja de Nampula”, que “antes do 25 de abril não era possível publicar”. Nesse texto se proclamava que “A repressão, o medo, o silêncio e a morte não constroem a paz”, apelava à “paz para as populações de Moçambique”, a rever “os direitos e os deveres que dão consistência à paz”. Assinalava que “a guerra é um mal e fonte de males”, apelava ao respeito sagrado pela vida humana, denunciava as torturas infames, que tornam infame a guerra que as usa. Embora sabendo a dificuldade dos caminhos da paz justa, apelava ao diálogo em vez da confrontação armada.

Mantinham-se os espaços habituais “reflexos da TV”, apelando à “companhia boa que temos em nossa casa”;  em “Pontos de vista” apelava a que os grandes valores que fundamentam o homem não serão pisados pelos jornalistas portugueses”; em crónicas do Ensino se lembrava a admissão de Óscar Lopes como diretor da Faculdade de Letras do Porto, e a entrada de Ruy Luís Gomes como reitor da Universidade do Porto. Falava-se da possibilidade da “abolição de exames” e dava-se conta da posição dos “cristãos face aos acontecimentos”.

Analisava-se a movimentação do “xadrez político” e das possibilidades do seu desenvolvimento. Especialmente significativo também um texto de José Capela (José Soares Martins), que referia: “Angola e Moçambique: o grande problema imediato”, lembrando que “o ponto quente do momento político actual é, sem qualquer concorrência, o problema colonial”. Havia a notícia de um “Telegrama do Senhor D. António ao Dr. Mário Soares”, recordando o exílio, saudando o regresso à Pátria, o serviço ao povo português e opções políticas dentro da unidade. As notas da semana lembravam o belo “slogan” “O povo unido jamais será vencido”, aplicando também à Igreja os grupos de criatividades, reflexão e acção”.

Assinalava-se ta crónica “como Londres recebeu a notícia”, salientando que o acontecimento “criou na opinião pública internacional uma nova simpatia pelo povo português”.

Significativa foi também a publicação de uma “Nota Pastoral do Episcopado Português”, que assinalava três pontos: a publicação um ano antes de uma Carta Pastoral a propósito do 25.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em que recordavam os ensinamentos da encíclica “Pacem in terris”, abordando temas como a responsabilidade dos cidadãos e a necessidade de uma convivência pacífica; no segundo ponto recordam-se os acontecimentos recentes “de incalculáveis consequências”, apelando à construção de uma ordem social assente na verdade, na justiça, na liberdade, no amor e na paz”. No terceiro ponto se afirmava a participação e pluralismo na vida social e política e a sua efetivação na verdadeira liberdade e no respeito devido às pessoas e instituições.

No número seguinte (18 de maio), dois temas sobressaem: uma comunicação do Bispo ao Conselho de Leigos, em quer afirma que “O futuro está no povo, no homem comum”, comentando a afirmação paradoxal: “tudo no homem é político, mas a política não é tudo”, afirmando que o católico não é indiferente, que não compete ao bispo chefiar qualquer movimento político ou partido, optando por um são pluralismo e afirmando que o anti-comunismo é estéril e  negativo, e apelando ao sentido da metanoia, capacidade para corrigir o mal e encontrar novos caminhos.

Propondo o compromisso moral do cristão, o papel do cristão na política e a reflexão de diversos movimentos e múltiplas iniciativas entretanto realizadas em contexto eclesial, apela à atitude e participação dos cristãos na vida política, ao dever de “estar presente” e aos critérios evangélicos da ação.

E logo no número seguinte, de 25 de maio, surgiam os problemas a resolver: “A Habitação –  um universo de problemas”, a Igreja e as colónias portuguesas e depois uma análise da Igreja e guerra colonial.

Como se verifica, sempre a VP acompanhou o movimento social, eclesial, político e humano da sociedade portuguesa nesses anos de convulsão.

Significativamente, tudo se irá resumir no primeiro número de 1975, quando o Bispo, na primeira homilia da Paz após o 25 de abril, sentia a necessidade de apelar à “paz em Portugal pela reconciliação entre os portugueses” (texto depois publicado pela Telos). Esta reflexão manifesta a consciência do conflito vivido pela ação da abundância de movimentos políticos e partidários, que ameaçavam a paz social.

É significativo que o primeiro número de 1974 começava com o grande título “A Paz é a nossa opção, a Paz é possível”, tema da homilia do Bispo do Porto e de uma nota da Comissão Diocesana Justiça e Paz, afirmando que “A paz jamais pode ser considerada uma utopia”.

O Bispo lembrava aos cristãos portugueses que fossem “mestres da paz”, falava de patriotismo cristão (como não lembrar a recente expressão «amor político», do Papa Francisco?), da justiça e equidade social, com um apelo à qualidade de vida, “na justiça social, na liberdade cívica, na participação política”.

Eram as palavras da grande inquietação da Igreja e da sociedade daqueles tempos, que dava corpo aos movimentos católicos que apelavam e trabalhavam justamente por essa liberdade, participação política e justiça social.

Hoje apresentam-se muitas reflexões sobre o papel dos movimentos católicos na edificação do espírito que conduziu ao 25 de abril. A palavra saía da própria hierarquia, embora os processos posteriores da sua efetivação passassem muitas vezes como conflitos políticos perniciosos e evitáveis. Mas as forças que movem as sociedades são frequentemente antagónicas e não unidirecionais. Onde estão os ideais nem sempre se unificam as forças.