Da história da música para a liturgia: Domingo IV da Páscoa

Foto: João Lopes Cardoso

Por Bruno Ferreira*

O tema do Domingo IV da Páscoa, o segundo da liturgia antiga, é o da misericórdia de Deus, evocada desde a primeira palavra do Introito, que, como é frequente, dá o nome à própria festa. Esta misericórdia é encarnada na imagem do Bom Pastor, que era apresentada nas leituras do ciclo único, mas que também está presente, embora por vezes de forma mais velada, no ciclo trienal agora adotado pela Igreja Católica.

Pitoni: Misericordia Domini

 

Latim:

 

Misericordia Domini

plena est terra, Alleluia.

Verbo Domini caeli

firmati sunt, Alleluia.

Exultate justi in Domino

rectos decet collaudatio.

Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto.

Sicut erat in principio

et nunc et sempre

et in saecula saeculorum, Amen.

 

[Cfr. Salmo 32, 5b.6ª.1 (Vulgata)]

 

 

 

Tradução portuguesa:

 

Da misericórdia do Senhor

está cheia a terra, Aleluia.

Da Palavra do Senhor

foram feitos os Céus, Aleluia.

Exultai, justos, no Senhor,

aos homens retos seja dado o louvor.

Glória ao Pai e ao Filho

e ao Espírito Santo.

Como era no princípio, agora

e sempre, pelos séculos dos séculos. Ámen.

A beleza da realidade da misericórdia, a própria palavra que a indica e o conceito que exprime levam-nos a propor um Introito composto para esta ocasião. O autor, Giuseppe Ottavio Pitoni (1657-1743), está infelizmente quase completamente esquecido, mas, como veremos, a sua música merece ser redescoberta. A sua produção conhecida é predominantemente sacra, e revela a mestria do compositor na gestão de missas corais: o estilo “policoral” (realizado acostando, também espacialmente, diferentes coros posicionados em diferentes pontos das igrejas) foi um dos favoritos da era barroca em Roma, e descende diretamente da escrita “a cori spezzati” que tinha sido praticada anteriormente no norte de Itália, e particularmente em Veneza.

No entanto, a atmosfera predominante no seu Misericordia Domini (https://www.youtube.com/watch?v=Eet_wVoMT6U), (para coro SATB) publicado em 1736, é a de um recolhimento participativo, em vez da pompa triunfante do barroco romano cintilante. A composição está dividida em três partes: a primeira, embora entrelaçada com o “Aleluia” pascal, é, no entanto, quase embaladora; talvez possa sugerir o gesto providencial do Bom Pastor mencionado no Evangelho. Os três “Aleluias” que encerram a primeira parte são também indubitavelmente festivos, mas nunca abandonam uma certa compostura contida.

De sinal diferente, porém, é a segunda parte, “Exultate justi“, na qual, graças ao andamento ternário realçado pelo ritmo carateristicamente sem pressa e saltitante, o ambiente se torna francamente cativante, ainda que por breves instantes: a doxologia (“Gloria Patri et Filio“) conserva, sem dúvida, o estilo alegre, mas abre caminho à terceira secção. Esta, que retoma o texto de abertura, coloca toda a peça sob o signo da contemplação e do louvor, sincero mas encantado, da bondade de Deus.

*sacerdote e aluno de composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS) em Roma