A aspersão dominical, memória do batismo

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

«Rica de mistério é a água. Simples, límpida, desinteressada; pronta a purificar o que está sujo, a mitigar a sede do sequioso. E ao mesmo tempo profunda, insondável, irrequieta, plena de enigmas e de força. Imagem adequada do abismo misterioso donde surge a vida, e imagem da própria vida que parece tão clara e é tão misteriosa. Compreendemos agora bem a razão pela qual a Igreja faz dela o símbolo e veículo da vida divina, da graça» (Romano Guardini, Sinais Sagrados, Fátima, SNL 2017, p. 35; cf. Braga, Ed. Franciscana, 1962, p. 55).

O último Concílio quis reavivar nos fiéis a consciência da sua condição de batizados. No âmbito da reforma litúrgica, tal facto levou a algumas realizações práticas quer no Ritual da celebração do Batismo, quer no lugar da fonte batismal (com alguns exageros neste ponto, v.g. colocação de pias batismais no Presbitério). De sinal contrário e como consequência da mentalidade racionalista e antissimbólica reinantes que, não obstante o sentido íntimo da reforma litúrgica, condicionou a sua receção e aplicação, caiu em desuso quer a prática da aspersão dominical no início da Missa (com, pelo menos, mil anos de existência), quer o costume dos fiéis se benzerem com água benta à entrada das igrejas. Generalizando diremos que, entre nós, nas igrejas antigas as pias “secaram” e nas novas já nem as há. Porventura para combater um uso supersticioso deste sacramental, fez-se deserto e instalou-se a desconfiança relativamente à água benta. Quem a pede é olhado com surpresa, reserva ou, até, suspeita.

Mas a liturgia não é racionalista e ama o símbolo. Não é ela tecida de sinais sagrados e de palavras intimamente a eles unidas? A nossa liturgia recorda o Batismo com o gesto da aspersão em momentos muito significativos:

  • em primeiro lugar, na Vigília Pascal, a noite batismal por excelência, com a renovação comunitária das promessas batismais;
  • na Dedicação das Igrejas, em que o bispo asperge o povo, o altar e as paredes do edifício, envolvendo todas estas realidades, animadas e inanimadas, em profundo significado batismal;
  • na celebração exequial, com a aspersão do defunto (em casa e no cemitério, e sobretudo no rito da encomendação e despedida), evidenciando a sua condição de batizado, membro da família de Deus, destinado à vida eterna com Cristo;
  • finalmente, no início da missa dominical (e, por extensão e com idêntico sentido, à entrada das igrejas), para que os fiéis avivem a sua consciência de batizados que faz deles membros de Cristo e da Igreja abrindo-lhes o acesso à celebração dos divinos mistérios.

Para este último rito que, não sendo obrigatório se pode realizar em todas as missas dominicais, incluindo as antecipadas para sábado à tarde, o Missal em vigor oferece dois formulários ricos e expressivos. Nas edições anteriores do MR essa proposta aparecia apenas no Apêndice ficando um tanto oculta e parecendo, por esse facto, menos recomendada. Mas nas edições mais recentes, o rito da Aspersão dominical da água benta está localizado entre os ritos iniciais, imediatamente antes do hino Glória, o que favorece e incentiva o seu uso, em alternativa ao habitual ato penitencial.

O rito consta de uma admonição, seguida de silêncio, da oração de bênção da água (a que pode acrescentar-se, conforme os costumes locais, a bênção do sal e mistura deste na água), da aspersão (acompanhada de canto) e de uma oração conclusiva. Segue, depois o Glória (salvo no Advento e na Quaresma) e a oração coleta.

O Missal propõe dois modelos para a admonição introdutória. Para a oração de bênção da água oferece cinco textos alternativos, distribuídos por dois formulários, com duas fórmulas específicas para o tempo pascal. Dê-se especial relevo à aspersão, propriamente dita. A sua expressividade aconselha a que o Presidente se desloque até ao fundo da igreja, aspergindo os fiéis de forma “generosa” e com um gesto visível, claro e amplo (não de forma tímida ou furtiva). Entretanto deve cantar-se, apresentando o MR sete antífonas para tal (cinco específicas do Tempo Pascal) e ressalvando a rubrica que se pode executar outro cântico apropriado. No final (em paralelismo com a absolvição do Ato Penitencial), o presidente diz uma fórmula conclusiva.

Bem realizado, este gesto assinalará a condição batismal da comunidade celebrante e sugerirá uma motivação mais rica para celebrar a Eucaristia dominical: dar-lhe-á um tom batismal, de vida, de renovação, de purificação, de Páscoa, em suma, de Domingo. Após a Missa, sugere-se que se dê uso à água benzida não só nas celebrações que tal preveem (Exéquias, bênçãos…) mas também abastecendo devidamente as pias tradicionalmente colocadas à entrada das nossas igrejas…