O Cinema visto pela Teologia (107): “Shoshana”

Uma leitura do filme “Shoshana – A Terra Prometida

Por Alexandre Freire Duarte

“Shoshana – A Terra Prometida” é um corajoso, ambicioso e comovente filme de ação histórica política, que se centra na análise de um período complexo do séc. XX (os anos do Mandato Britânico na Síria do Sul – que ainda têm repercussões nos dias de hoje). E fá-lo mediante estratagemas de: explicações didáticas narrativas assistidas por filmagens de época; centrar a ação em Tel Aviv (excluindo, dessa forma e quase totalmente, as manobras dos terroristas islâmicos); não tomar posição entre as forças em conflito; e dar a conhecer este dito conflito por uma persuasiva e bonita trama de amor.

O trio principal de atores (Booth, Starshenbaum e Melling) são persuasivos, mas se Melling é comedido e Booth intenso, é a extraordinária Starshenbaum quem brilha, seja no ardente e conflituoso romance da sua personagem com a de Booth, seja quando se vai apagando à medida que a trama avança. Os cenários e a caracterização são geniais e num só olhar entendemos quem está diante de nós no meio da violência ou da vida urbana, bem definidas pela sugestiva e elegante música cheia de jazz e de percussões que se moldam à edição e ao jogo de câmaras que fazem pressentir a sensação tácita de perigo.

O facto de na mesma semana terem estreado nos cinemas dois filmes com o mesmo (sub)título – A Terra Prometida – é, certamente, uma coincidência. Mas é um acaso que aponta para uma profunda realidade: todo o ser humano anda em busca daquela Realidade à vista da Qual poderá dizer algo como: “nunca Te tinha visto antes, mas agora sei que fui feito para estar Aqui”. Com este “Aqui” a ser, é evidente, o espaço de amor kenótico eterno entre as Pessoas divinas; a ser o coração aberto e vibrante de Deus.

Mas até aí chegarmos um caminho de esperança e alegria serena e até sofrida (por ser resultante do amor) precisa de ser trilhado. Um caminho no qual (e sob pena de trairmos a nossa vocação cristã de seguimento de um Jesus Cristo que não Se furtou a embates e a palavras fortíssimas) não podemos ser diplomáticos apáticos que apenas alimentam “pazes podres”. “Podres”, pois não se vai ao fundo e à verdade das questões – no que apenas gerará, forçosamente, o ampliar das tensões. Os “nós” carecem de ser desatados pelo amor, sob pena da pressão por eles causada normalizar o intolerável.

Face a isto, o relevante (mesmo no meio das difusas violências em que vivemos), é eleger o amor melhor que fortalece corações e mais nos personifica e cristifica, banindo, por conseguinte e da nossa intervenção, rancores, cinismos, arrogâncias, egoísmos e divisões que destroem histórias de vida e até estas mesmas vidas. Sim: Jesus não veio dar códigos morais, mas a Si mesmo, todavia devemos sempre perguntar-nos: que exigências espirituais comportam para nós essa Sua inefavelmente terna Auto-doação?

O extremismo erode-nos, mas as intermitências da cegueira também. Vivemos em tempos mártires, nos quais dizermos a nossa opinião cristã e/ou agirmos de modo cristão pode fazer-nos como que detestáveis para aqueles a quem nos dirigimos. Seja. Mas não nos inquietemos. Somos, enquanto fiéis aos dons sacramentais e aos pedidos do Senhor, os Livros que Ele está escrever. Façamos tudo o que pudermos para que esses Livros desabrochem, mas, indo nós até ao fim do que nos é possível, dêmos o feito e o por fazer a Ele. Foi Jesus que nos chamou; é um encargo (muito feliz) para Si tratar do restante.

(Reino Unido, Itália; 2023; dirigido por Michael Winterbottom; com Douglas Booth, Irina Starshenbaum, Harry Melling, Aury Alby e Ian Hart)