Para memória… A Igreja e o 25 de Abril – (III) – Em Lisboa

Por João Alves Dias

Contrariamente ao Porto onde se agigantava a figura do seu bispo D. António, em Lisboa, salvo notáveis exceções, era a voz dos leigos que clamava contra a guerra colonial e denunciava o silêncio ‘colaboracionista’ da hierarquia.

  • Juventude Universitária Católica – “Peixes vermelhos em pia de água benta”, como lhe chamava o ‘Regime’.

Em 1958, pela primeira vez desde a fundação do Estado Novo, católicos, organizados, tiveram uma intervenção pública de crítica aos métodos da Igreja e, indiretamente, do ‘Regime’ que até aí beneficiara do seu apoio praticamente unânime.

Essa quase unanimidade foi quebrada (19/5/1958) quando um grupo de 28 dirigentes católicos escreveu uma carta ao diário católico Novidades. Protestavam particularmente contra a falta de uma «atitude imparcial» em relação às três candidaturas presidenciais.

Os signatários eram gente da J.U.C. e assumiam claramente a sua condição de católicos:

“Os abaixo assinados são católicos que nunca se recusaram, sempre que foi

necessário, a publicamente dar testemunho da sua Fé e da sua inquebrantável

confiança e submissão à Santa Igreja. São católicos que se orgulham em Cristo

de serviços prestados no Apostolado leigo”. (Luís Salgado de Matos, A campanha de imprensa contra o bispo do Porto):

Era uma elite de jovens intelectuais que iria marcar o ‘pós-25 de Abril’. Só

alguns nomes: João Bénard da Costa, António Alçada Baptista, Nuno Portas, José

Pinto Correia, João M. Salgueiro, Adérito Sedas Nunes, Nuno Teotónio Pereira,

Nuno de Bragança, Mário Murteira, Henrique Barrilaro Ruas, Pedro Tamen,

Manuela Silva, Francisco Pereira de Moura.

  • Capela do Rato – Despertar as consciências

Na sequência da vigília pela paz, do ano anterior na igreja de S. Domingos, um grupo de cristãos anunciou, em 30 de dezembro de 1972, um período de reflexão de 48 horas sobre a Guerra Colonial, na capela do Rato. Como forma de solidariedade com as vítimas dessa guerra, os promotores declaravam manter-se em greve de fome até ao dia 1 de janeiro.

Ainda no dia 31, as forças do regime entraram na Capela do Rato e detiveram os presentes.

“As repercussões da Vigília da Capela do Rato prolongaram-se no tempo. Para além do tratamento mediático, nacional, local e internacional, verificaram-se diferentes tomadas de posição, abaixo-assinados de apoio e de protesto e a produção e difusão de diferentes panfletos. Grupos de católicos e organizações de estudantes e de trabalhadores expressaram-se e alargaram o debate sobre a Guerra Colonial.”

Em 2021, a ‘Capela do Rato’ foi enaltecida pela Assembleia da República na justificação do voto de pesar pela morte (21/4/2021) duma “destacada militante católica (…)” aprovado por unanimidade pelo PSD, PAN, PS, PCP, PEV e BE:

“Neste contexto de contestação ao salazarismo e à guerra colonial, através de inúmeras ações concretas em que a intervenção política e a fundamentação evangélica se uniram, Maria da Conceição Moita veio a ser uma das organizadoras da vigília pela paz da Capela do Rato (30/12/1972), uma das iniciativas mais emblemáticas levadas a cabo por católicos neste âmbito, tendo sido ela que leu a declaração que convocava a vigília de 48 horas de oração pela paz, assumindo o compromisso de dois dias de jejum completo, como protesto contra situação de guerra que se vivia em Portugal, em solidariedade com as suas vítimas e contra a ausência de uma condenação por parte da hierarquia católica.”

Integrado nas comemorações oficiais dos 50 anos do ’25 Abril’, foi inaugurado, no Jardim das Amoreiras, bem perto da capela que lhe deu o nome, no passado dia 25 de março, com a presença do ministro da Cultura, o ‘Memorial à Vigília da Capela do Rato’ em que sobressaem palavras evocativas do seu significado como PAZ, LIBERDADE, ESPERANÇA, JUSTIÇA

Nas vésperas do 50.º aniversário da ‘Revolução dos Cravos’, relevo as palavras de José Manuel Pureza, deputado do Bloco de Esquerda, em entrevista ao 7Margens:

A democracia tem uma dívida de gratidão para com aqueles homens e mulheres que deram corpo à ruptura do campo católico com a ditadura e a guerra colonial. Gente que se irmanou com quem combateu pela liberdade, encarando essa entrega como um serviço ao bem comum”.

(Continua no próximo número)