O Cinema visto pela Teologia (106): “Culpado-Inocente-Monstro”

Uma leitura do filme “Culpado – Inocente – Monstro

Por Alexandre Freire Duarte

Esta obra é um filme que, como apelo pungente à aceitação dos demais, se vai desenvolvendo de modo a formar uma abordagem não-linear que nos vai dando tudo menos o que esperamos – ou mais… Apesar de ser uma mistura de géneros estanques, consegue ser uma pedra preciosa que, do fogo à água, se mostra irónica, diligente, impressionista, rupnikiana e delicada, numa melancólica e compassiva criação trífida no círculo de personagens que espelha os choques das realidades morais modernas. Subjetivismo puro? Não. Respeito emocional e intelectual para com o facto de se poder ver a mesma ocorrência desde perspetivas diferentes sem que nenhuma negue as demais.

As performances em “Culpado – Inocente – Monstro são extraordinárias e Kore-eda Hirokazu cuida delas com uma estima que faz realçar o que de mais discretamente singular é realizado por cada ator, em especial pelos absolutamente naturais e francos adolescentes. A fotografia é suculenta, alternando de modo estaladiço verdes luminosos e pálidos azuis com cinzentos crepusculares, suscitando um pesar doloroso que é sublinhado ao extremo pela pungente música córdica do grande Ryuichi Sakamoto.

Já dizia Juvenal que é mais fácil atirar esterco à cara de uma pessoa do que dispor-se a ajudá-lo a sair do meio dele. E quem está a precisar dessa ajuda, muitas vezes nada mais pode fazer do que defender-se, numa nebulosa de palavras e condutas muitas vezes levadas a cabo para proteger a quem mais ama. Não poderiam todos entreajudar-se e cuidarem-se uns dos outros? Mormente quando está em jogo a vida de crianças que acabam vítimas de prejuízos, pais que não os compreendem e uma escola fria e alheada?

Sim: a felicidade deve ser para todos se for para merecer ser felicidade. Mas já nos demos conta de que Jesus é a (raiz da) nossa felicidade, pelas Suas escolhas messiânicas que fizeram Deus morrer no Homem e o Homem em Deus? Talvez não, pois recusamos o infinito e a dor do darmos à luz a Jesus no nosso coração. Todavia, não é este infinito requerido, desde logo, para se realizar qualquer ato humano genuíno e, doutro lado, não é tal dor (que nada vale se não for fruto do amor e/ou com este vivida) o que abre à vida?

Ponhamos mais vezes de lado as nossas assunções acerca dos demais e criemos mais espaços para a gentileza do cuidado que expressa as esperanças capitais de todos e, ao mesmo tempo, a liberdade soberana do específico de cada um. E isto porque a verdade objetiva frequentemente dá-se a conhecer em camadas sobrepostas em que cada um só acede a uma. Sem isto, os miasmas do receio e o querer viver escondido medram. Eis a ansiedade pelo desconhecido a tomar conta das nossas vidas e a impedir-nos de encontrar Deus nas orações. Se isto acontecer, busquemo-Lo na maternidade da Igreja.

Tudo isto nos é arrojado neste filme, mas igualmente os tristes efeitos do descuido causador de que, o que se pensa que devemos reprimir, tenha repercussões em quem nos rodeia. E lança-nos isto desde uma imagem sóbria da meninice, do acolhimento e do anseio da liberdade. Contudo, se os erros, os desentendimentos e os padecimentos espirituais resultantes de tais descuidos forem interiorizados, e o resultado disto são mais feridas (por mais que Deus as sare e as albergue em Si sem delimitar o Infinito que é).

(Japão; 2023; dirigido por Kore-eda Hirokazu; com Sakura Andô, Eita Nagayama, Soya Kurokawa, Yūko Tanaka e Shidô Nakamura)