Para memória… A Igreja e o ’25 de Abril’ – (II) – No Porto

Por João Alves Dias

D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto

Tornou-se o símbolo da resistência católica à ditadura de Salazar, em 1958, com o seu “Pro Memoria” = “Carta do Bispo do Porto a Salazar”.

“Essa já famosa carta caiu no meio português como gota de ácido em calcário. Não estávamos habituados a gritar alto e bom som os nossos desacordos. D. António quis pensar por si, frente à realidade nua e crua; desceu da estratosfera dos princípios ao rés do concreto e da vida prática; uniu os dois polos e saltou faísca. Nada mais”. (Joaquim Faria, Críticas ao livro de Manuel Anselmo)

Esta coragem valeu-lhe um exílio de 10 anos que só terminou quando Salazar deixou de governar. Homem forte que sempre foi fiel ao lema “De joelhos diante de Deus, de pé diante dos homens”.

Em 22/4/1980, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade; em 20/5/1982, foi homenageado na Assembleia da República; e, em 2017, agraciado, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada.

Padre Mário de Oliveira

Foi preso pela PIDE em 1970 e em 1973. Aquando do seu primeiro julgamento, o “Notícias da Amadora” (28/12/1970) escrevia: “Os jornais noticiaram o início do julgamento, no Plenário do Porto, do Pe. Mário de Oliveira ‘acusado de, nas homilias de algumas missas dominicais, ter incitado à desobediência colectiva à ordem

pública e publicado e difundido escritos seus atentórios da paz social e das Autoridades do Chefe de Estado e da Assembleia Nacional”. O texto a negrito não foi publicado porque foi cortado pela Censura.

– Dezasseis Presbíteros e um Diácono

No início da década de setenta, um grupo de jovens ordenados secundou a atitude do P. Mário. E, no dia das eleições para a Assembleia Nacional (28/10/1973), fizeram uma homilia coletiva cuja temática explicitaram no ‘Dia da Paz’ (1/1/1974):

Há 13 anos que Portugal mantém uma guerra, com toda uma série de

consequências que nos tocam de perto:

– Militares mutilados, ou enfraquecidos na saúde e gastos nos nervos;

– Famílias abaladas pela ausência ou morte de militares;

– Angústia e medo em que vivem as populações nas zonas de guerra;

– Mortes, violências e massacres dum e doutro lado; – cada vez mais ódio,

intolerância e extremismo.”

Há em Portugal situações que nos interpelam:

– A aflição em que vive grande parte da população, economicamente mais

débil, perante o crescente aumento do custo de vida;

– As condições infra-humanas em que tantos vivem, diminuídos por graves

carências de alimentação, habitação, higiene e saúde;

– Condições de trabalho e ritmo de produção que fazem dessas pessoas

máquinas; – a insegurança dos trabalhadores em risco de despedimento sem

justa causa;

– Desequilíbrio entre os lucros das empresas e os ordenados;

– Os conflitos com estudantes e o recurso sistemático à intimidação e

repressão como meio de resolver estes problemas e outros…”

Não podemos deixar de referir os condicionalismos que estão na raiz

desta situação:

– As informações que a T.V., os jornais e a rádio nos fornecem são frequentemente

incompletas, quando não falsas;

– Os cidadãos são impedidos de se reunirem, de se associarem e de exprimirem

livremente as suas opiniões…” (Coronel António Cruz, ‘As Mentiras de Marcelo Caetano’, pág. 76-83)

Esta homilia, que o Governador Civil de então classificou como ‘uma declaração de guerra em dia de paz em carta ao Ministério do Interior (10/1/1974), valeu-lhes a suspensão do passaporte e o início dum processo que só não teve graves consequências porque, entretanto… – e foi há 50 anos! – ‘Aconteceu Abril’.

Um, pelo menos, destes presbíteros veio a receber (9/7/2014) a ‘Medalha de Mérito-Grau Ouro’ da Cidade do Porto.

O P. Fernando Mendes, um dos célebres ‘Padres de Macuti’, que, em 1971, terminou Teologia no Seminário da Sé e, em 1973, regressado de Moçambique, trabalhou com o P. Coelho, na Pasteleira, deixa-nos, no livro Moçambique …A Intervenção da Igreja Católica…, pág. 331, o seu testemunho sobre a, então, Igreja do Porto:

“Era um ambiente onde se respirava intensamente o espírito pós-conciliar de uma Igreja serva, pobre e libertadora (…) Um mundo novo, um tempo novo e homens novos, desassossegados com a injustiça, com a pobreza, com a ignorância que permitia a poucos escravizar muitos”