Via-Sacra: Papa evoca vítimas das guerras e dos «lucros iníquos» que violam dignidade humana

O Papa evocou as vítimas das guerras e as pessoas exploradas em nome de “lucros iníquos”, nas inéditas meditações que escreveu para a Via-Sacra que decorre nesta Sexta-feira Santa, no Coliseu de Roma.

“Jesus, que esta oração de intercessão alcance as irmãs e os irmãos que, em muitas partes do mundo, sofrem perseguições por causa do vosso nome; aqueles que sofrem o drama da guerra e quantos, com a força que lhes vem de Vós, carregam cruzes pesadas”, escreve Francisco, num texto divulgado pelo Vaticano e enviado à Agência Ecclesia.

Esta é a primeira vez que o atual Papa redige as meditações da tradicional Via-Sacra no Coliseu; os textos sobre as 14 estações – momentos ligados à prisão, julgamento e execução de Jesus Cristo –têm como tema “Em oração com Jesus na Via-Sacra”.

O Vaticano anunciou, minutos antes do início da celebração, a ausência do pontífice.

“Para preservar a sua saúde em vista da Vigília de amanhã e da Missa do Domingo de Páscoa, o Papa Francisco seguirá esta noite a Via-Sacra no Coliseu a partir da Casa Santa Marta”, refere a nota enviada aos jornalistas.

Nas suas meditações, Francisco denuncia a situação de “quem é despojado de dignidade, nos Cristos humilhados pela prepotência e a injustiça, por lucros iníquos obtidos à custa dos outros na indiferença geral”.

A reflexão inclui uma “invocação final” do nome de Jesus, em 14 preces.

“Senhor, nós vos suplicamos como aqueles necessitados, frágeis e doentes do Evangelho que vos invocavam com a palavra mais simples e familiar, isto é, com o vosso nome”, pede Francisco.

O Papa reza pelos “vossos projetos de bem e de paz” de Deus para a humanidade, numa série de reflexões que apontam ao Jubileu de 2025 e ao ano preparatório que a Igreja Católica está a viver, dedicado à oração.

“No frenesim de correr e fazer, absorvido pelas coisas, tomado pelo medo de não continuar a figurar ou pela mania de me pôr no centro, não encontro tempo para parar e ficar convosco”, lamenta.

“Também nós carregamos cruzes, às vezes muito pesadas: uma doença, um acidente, a morte dum ente querido, uma desilusão afetiva, um filho que anda perdido, o emprego que falta, uma ferida interior que não cura, o fracasso dum projeto, a milésima expectativa para nada… Jesus, como se faz então para rezar?”

Partindo dos vários momentos de sofrimento que marcam a Via-Sacra, o Papa fala em “momentos cruciais” na vida de todos, que sublinham a necessidade de Deus e do seu perdão.

Francisco dedica várias reflexões às mulheres, ao “olhar materno”, e ao papel da Virgem Maria nos momentos da Paixão de Jesus, para sustentar que “o sofrimento com Deus não tem a última palavra”.

“Ajudai-nos a reconhecer a grandeza das mulheres, daquelas que foram fiéis e estiveram perto de Vós na Páscoa, mas também daquelas que ainda hoje são descartadas, sofrendo ultrajes e violências”.

O Papa recorda os insultos de que Jesus foi algo e diz que hoje “basta um teclado para insultar e publicar sentenças”.

“Enquanto muitos gritam e condenam, abre caminho no meio da multidão uma mulher. Não fala; age. Não insulta; compadece-se. Vai contracorrente: sozinha, com a coragem da compaixão”, acrescenta.

Francisco sublinha a importância da “oração de intercessão, que salva o mundo” e “atravessa até a escuridão da morte”.

“Será verdadeiramente Páscoa se der algo de meu Àquele que por mim deu a sua vida: pois é dando que se recebe; a vida é encontrada quando se perde, e é possuída quando se dá”, conclui.

A cruz foi carregada, ao longo de Coliseu, por religiosas de clausura e consagradas, uma família, pessoas que vivem em casas de acolhimento e numa comunidade de reabilitação, pessoas com deficiência, membros de grupos de oração, padres que confessam nas Basílicas papais, profissionais de saúde, migrantes, catequistas e párocos de Roma; as velas foram transportadas por jovens universitários.

A Paixão de Jesus é assinalada no Coliseu desde o século XVIII: no Ano Santo de 1750, proclamado pelo Papa Bento XIV, 14 nichos e uma grande cruz foram erguidos neste local; em 19 de setembro de 1756, o anfiteatro foi consagrado à memória da Paixão de Cristo e dos mártires.

A tradição foi interrompida, mas 1959 o Papa João XXIII restaura o rito da Via-Sacra no Coliseu de Roma, retomado por Paulo VI em 1964 – num percurso que passa pelo Anfiteatro Flaviano, os Fóruns Imperiais e o Arco de Constantino.

(inf: Agência Ecclesia)