Rotas da Páscoa, o abrir de caminhos renovados

Por M Correia Fernandes

O semanário da Diocese de Aveiro, Correio do Vouga, dava conta de um testemunho que classifica de emotivo, de uma jovem que afirmou que se afastou da Igreja durante algum tempo, mas que “estava tudo destinado para voltar” procurando seguir a Cristo.

É esta uma dimensão de grande relevo na sociedade de hoje. Muitas são as circunstâncias e as causas pelas quais os esquemas mentais, os espaços sociais e as condições laborais da sociedade hodierna fabricam dinâmicas de afastamento. As condições laborais e a propaganda ideológica lançam rumos que desfasam os caminhos do tempo de formação familiar ou de relacionamentos afetivos para situações de isolamento emotivo e intelectual que podem fazer perder as linhas de força que valorizam e condição pessoal.

Esta mensagem sedutora levou-me ao encontro de uma palavra de Tolentino de Mendonça que fala da mística do quotidiano: o que nos traz a vivência dos nossos gestos simples, lembrando a palavra de Jesus dirigida a Marta, ao propor-lhe que “uma só coisa te é necessária”. Parece-me que a jovem em referência na notícia acolheu o sentido profundo da palavra “uma só coisa é necessária”, porque uma só coisa são todas as coisas banais do mundo nas quais um dia descobrimos o essencial. E para isso se pode assumir a proposta do título da obra de Tolentino “Nenhum caminho será longo”, porque o sentido pleno do caminho torna-o um valor essencial em sim mesmo.

Lia-se numa entrevista ao Prémio Nobel de Literatura Jon Fosse, este título: “A minha escrita tirou-me do ateísmo”. Lendo as suas palavras , podemos  ver nelas algo de semelhante ao que  dizia a jovem aveirense. Dizia ele: “Considerei-me ateu durante muitos anos. Mas minha escrita tirou-me do ateísmo. Não se consegue explicar o que acontece ao escrever numa visão apenas materialista, é impossível. Como a música da Bach, não se consegue explicar de onde vem, é impossível. Foi como se um espírito se tivesse aberto para mim, e que eu chamo desconhecido, e eu tornei-me próximo disso. Quando as pessoas me perguntavam se acreditava em Deus, comecei e responder que sim. Que sou crente… Só entendendo os atributos de Deus, assim pode-se falar com Ele, ou rezar, sentir a sua proximidade, a distância, que Ele é uma realidade que não de consegue descrever. Uma realidade sem fronteiras que se consegue ouvir no silêncio”. (Ípsilon, 22 de março 2924).

A vivência destes tempos de Quaresma e Páscoa pode ajudar tanta gente a descobrir esse caminho aberto para o sentido das vivências e dos dramas da vida. A presença de Deus está no universo dos nossos dias. Encontramos pessoas, encontramos dramas, encontramos banalidades, encontramos gestos simples, gestos nobres e gestos sublimes. É no nosso contacto com cada um deles que se edifica o dom e a presença de Deus. Há coisas admiráveis, mas não buscamos as coisas admiráveis, senão quando de repente elas surgem e se tornam para nós estímulos de caminhos a percorrer.

Nesta proximidade da Páscoa somos confrontados com a guerra, a mentira, o embuste, o engano, a falsidade, onde Deus está ausente. Mas devemos sentir-nos chamados à verdade (o que é a verdade? – a pergunta de Pilatos mantém-se atual), ao sentido da justiça, ao respeito pela dignidade humana (tantas vezes esquecida nas leis), aos projetos de desenvolvimento equilibrado da natureza e da vida.

Lembrando uma palavra do papa Francisco: “É necessária coragem quando se está empenhado em garantir um processo justo e se está sujeito a críticas. A força das instituições e a firmeza na administração da justiça são demonstradas pela serenidade de julgamento, independência e imparcialidade daqueles que são chamados, nas várias fases do processo, a julgar. A melhor resposta é o silêncio diligente e o empenho sério no trabalho” (Mensagem aos Magistrados, 2 de março de 2024), em que apela também ao discernimento necessário para caminhos justos.

Estes dias de Semana Santa e Páscoa, em tempo de agressões e guerras, eme tempos de novas dimensões governativas, podem tornar-se tempo de graça e de procura, de discernimento vital, da busca pessoal da Palavra de Jesus Cristo, na simplicidade dos caminhos da vida, na arte, na celebração, nos sinais, nas expressões vitais.

A Páscoa de Cristo imolado deve tornar-se a Páscoa de Cristo ressuscitado, Páscoa dos caminhos da esperança e da Paz.

Páscoa de paz e salvação para cada pessoa e cada comunidade humana!