Para memória… A Igreja e o ‘25 de Abril’ (I) – Os Pioneiros

Por João Alves Dias

  • Nos bastidores…

O ‘Regicídio’, em 1908, com o assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe, feriu a alma portuguesa.

A enorme instabilidade governativa – 45 governos em 16 anos –  do regime republicano, após 1910, e a desordem social exacerbaram o sentimento de insegurança e insatisfação.

A Primeira Guerra Mundial (1914 -18) veio fomentar ainda mais o descontentamento popular porque, para além do sofrimento e morte de soldados, a carestia de bens alimentares semeou a fome em Portugal.

A este descontentamento generalizado, acrescia o repúdio dos católicos pela sanha antirreligiosa da República, com a expropriação dos bens da Igreja e a perseguição a padres e bispos como D. António Barroso (cf. VP, 6/3/2024) e D. Sebastião Vasconcelos (cf. VP, 13/3/2024).

Na infância, minha mãe sempre me falava dos tormentos que os carbonários infligiram ao ‘Senhor Abade’ que, expulso da residência paroquial em 1911, foi acolhido pelos pais dela na sua ‘Casa da Ponte’. Meu pai, que tocava clarinete num grupo ligado à Igreja, falava-me dos apupos a que estavam sujeitos.

A ‘Questão Religiosa’ muito contribuiu para a queda da ‘Primeira República’. O que foi bem compreendido pelos políticos do ‘25 de Abril’, como Mário Soares e Álvaro Cunhal, que, embora não-crentes, sempre a evitaram.

D. António Ferreira Gomes dizia, e com razão, que uma democracia desregrada é terreno fértil para o germinar das ditaduras…

Não admira, pois, que o ’Golpe Militar de 28 de Maio’, de 1926, tenha sido recebido com alívio por uma parte muito significativa de portugueses.

E a esperança redobrou quando, em 1928, o católico, António de Oliveira Salazar, professor da Universidade de Coimbra, foi chamado para a pasta das Finanças. E logo em 1928-29, o orçamento apresentou um saldo positivo. Foi um ‘milagre financeiro’ e a fuga à bancarrota.

Mais… A normalização das relações entre o Estado e a Igreja, levada a cabo por este membro ilustre do CADC de Coimbra, deu-lhe a auréola de ‘santo’ a quem até se atribuíam milagres como o de ter escapado ileso, quando ia à missa, de uma bomba que explodiu bem próximo dele (4/6/1937).

Todos sabemos que, após um inverno tormentoso, basta um raio de sol e já parece verão…

A hierarquia católica cultivava um sentimento de gratidão pelo ‘Salvador a da Pátria’ e ‘Defensor da Religião’.

Mas, houve presbíteros que cedo procuraram acordar a Igreja e a sociedade da letargia em que se deixaram embalar.  Foram vozes pioneiras em contra corrente…

  • Os pioneiros

– Padre Joaquim Alves Correia – Nasceu em Aguiar de Sousa (5/5/1886) e foi ordenado presbítero em 26 de outubro de 1910. Em 1981, foi agraciado, a título póstumo, com a ‘Ordem da Liberdade’ pelo Presidente da República, Mário Soares.

“Opôs.se a todas as formas de totalitarismos de direita e de esquerda, integrando o MUD, em 1945”. Morreu no exílio em 1951.

No dizer de D. António Ferreira Gomes, o P. Alves Correia, “grande homem da Igreja, ele é por isso homem de todo o mundo. (…) Homem de inteligência e de cultura cristã, nada de humano e cristão podia considerar-se alheio a si; e, porque o sentiu e o disse, veio a morrer exilado na Norte-América.

Padre Abel Varzim (1902 – 1964) – Formado em Lovaina onde privou com Joseph Cardijn, fundador da JOC, redigiu os estatutos da Ação Católica Portuguesa que, apesar de não ser do agrado do ‘Estado Novo’, foram aprovados pela Santa Sé. Esteve na fundação da LOC e foi o grande impulsionador do jornal ‘O Trabalhador’, órgão dos Operários da Acão Católica.

“Conheceu os caminhos amargos da perseguição política (e não só), ao mesmo tempo que realizava com forte empenho ações de formação para trabalhadores e estudantes universitários, naquilo a que hoje chamaríamos ‘formação para a cidadania”.

Padre incómodo – líder reconhecido dos “católicos sociais” – por defender os direitos dos trabalhadores, acabou por ser expulso de todos os cargos que exercia na Ação Católica Portuguesa.

E, apesar da perseguição, chegaram até hoje estas vozes da Igreja que o ‘Estado Novo’ quis silenciar. Que elas se repercutam em favor do homem e da sociedade!