Papa a delegação da RAI: servir, fazer refletir e não alienar a sociedade

Francisco recebeu em audiência neste sábado (23) uma delegação da RAI, uma das duas principais organizações de comunicação da Itália. Ao parabenizar pelo duplo aniversário – 70 anos de TV e 100 anos de rádio – o Papa refletiu sobre a base do trabalho da empresa, de serviço público: implica a vocação de ser um instrumento “de fazer refletir e não alienar”, “de abrir novos olhares para a realidade e não alimentar bolhas de indiferença autossuficiente, de educar os jovens a sonhar grande”.

O Papa Francisco, entre a série de audiências da manhã deste sábado (23), recebeu na Sala Paulo VI, no Vaticano, dirigentes e funcionários da RAI (Rádio Audições Italianas), a empresa pública de TV e rádio da Itália, uma das duas principais organizações de comunicação da Itália. Após saudar “a grande comunidade”, que também incluiu jornalistas, artistas, técnicos e familiares, o Pontífice cumprimentou pelo aniversário:

“70 de televisão, 100 anos de rádio: um duplo aniversário que, por um lado, os convida a olhar para trás, para a história de vocês, tão entrelaçada com aquela italiana; e, por outro lado, os desafia a olhar para frente, para o futuro, para o papel que desempenharão em um tempo que ainda está para ser construído, onde cada vida está cada vez mais conectada com as outras, em nível global. Além disso, estamos no Vaticano, e muitos de vocês conhecem bem estes lugares, porque a RAI, desde o seu início, sempre acompanhou de perto os passos dos Sucessores de Pedro.”

Ao longo de todos esses anos, disse o Papa, a RAI foi testemunha e também protagonista dos processos de mudança na sociedade, já que a “mídia, de fato, influencia nas nossas identidades, para melhor e para pior. E é aí que reside o significado do serviço público que prestam”. Assim, Francisco usou o discurso para refletir sobre essas duas palavras que descrevem “a base da missão”: serviço e público.

Serviço

Ao tratar o termo serviço, o Papa alertou sobre o objetivo da RAI que é servir, dar “uma resposta às necessidades dos cidadãos”, “respeitando e promovendo a dignidade de cada pessoa”, numa “contribuição à verdade e ao bem comum” em diferentes campos de atuação:

“No campo da informação, servir significa essencialmente buscar e promover a verdade, toda a verdade, por exemplo, combatendo a disseminação de fake news e os desígnios desonestos daqueles que buscam influenciar a opinião pública de maneira ideológica, mentindo e desintegrando o tecido social. A verdade èe uma, é harmônica, não pode ser dividida com os interesses pessoais. Significa evitar qualquer redução enganosa, lembrando que a verdade é ‘sinfônica’ e que é mais bem compreendida quando se aprende a ouvir a variedade das vozes – como em um coral – em vez de sempre gritar a própria ideia.”

Servir no campo da informação, acrescentou Francisco, também significa “garantir um pluralismo que respeite as diferentes opiniões e fontes”. Mas o serviço público também é feito através de diversas linguagens de comunicação, que vão do cinema à programação esportiva e infantil, por exemplo. A esse respeito, disse o Papa, “na nossa época rica em tecnologia, mas às vezes pobre em humanidade”, é importante promover “dinâmicas de solidariedade, salvaguardar a liberdade”, ajudando as pessoas à reflexão e despertando emoção e sorriso. Além disso, o Pontífice novamente alertou para a importância de se “agir preventivamente, propondo modelos de regulamentação ética” diante dos sistemas de inteligência artificial.

Público

Ao refletir sobre o termo público, o Papa recordou à delegação da RAI sobre o trabalho da empresa estatal “ligada ao bem comum, de todos e não apenas de alguns”, o que implica “um compromisso de considerar e dar voz especialmente aos últimos, aos mais pobres, aos que não têm voz, aos descartados”:

“Implica também a vocação de ser um instrumento de crescimento do conhecimento, de fazer refletir e não alienar – refletir e não alienar, a entrar em órbita – de abrir novos olhares para a realidade e não alimentar bolhas de indiferença autossuficiente, de educar os jovens a sonhar grande, com mentes e com olhos abertos. Essa palavra pode assustar: sonhar. Jamais perder a capacidade de sonhar; mas sonhar grande!”

A mídia em nível global, então finalizou o Papa, “precisa ser provocada e estimulada a sair de si mesma e a se questionar” para “manter o nível de comunicação elevado”. Essa responsabilidade, acrescentou ele, não corresponde a seguir a audiência a qualquer custo “em detrimento do conteúdo: trata-se, na verdade, de criar, por meio da sua oferta, uma demanda generalizada por qualidade”.

“Caros irmãos e irmãs, a RAI entra todos os dias em tantas casas italianas, praticamente em todas, e é bom pensar na sua presença não como uma ‘mesa de sabichões’, não, mas como um grupo de amigos que bate à porta para surpreender. E não se esqueçam do seguinte: a verdadeira comunicação é sempre uma surpresa, ela surpreende você! Você espera por algo e lhe surpreende; oferecer uma surpresa, fazer uma surpresa. Bater na porta para oferecer companhia, para compartilhar alegrias e tristezas, para promover em família e na sociedade a unidade e a reconciliação, a escuta e o diálogo, para informar e também para ouvir, com respeito e humildade.”

(inf: Vatican News)