De Nuno Júdice a Luís de Camões: algumas contingências

Por M. Correia Fernandes

Fomos confrontados, no domingo 17 de março de 2024 com a notícia da morte de Nuno Júdice  (1949-2021). Era natural do Algarve, autor de muitos livros de poesia e de muitas obras de análise literária e romance (em entrevista ele próprio falou de quarenta), e diretor da Revista Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, uma das revistas de literatura e cultura mais prestigiadas do nosso universo editorial.

Também se tem vindo a divulgar o tempo suposto da edição de Os Lusíadas, tendo-se apontado, sem fundamento que se saiba, o dia 12 de março de 1572. Se este ano de 1572 consta do próprio frontispício da edição prínceps do poema camoniano, que escreve “em casa de Antonio Gõzaluez Impressor – 1572”, não se encontra referência fiável ao 12 de março, como aliás não se encontra referência fiável ao ano de 1524 como o do seu nascimento.

Lá pelo ano do Porto 2001, capital Europeia da Cultura, em encontro com Eugénio de Andrade (1923-2005), quando lhe foi perguntado quais os poetas que influenciaram a sua criação poética, e que mais admirava, lembro-me de ter lançado nomes como Gil Vicente, Camões, Camilo Pessanha;  e perguntado sobre os mais recentes, lembro que anunciou Sophia e que “destes mais novos” havia nomes muito significativos, entre os quais me lembro de  escutar o nome de Nuno Júdice.

Para além dos seus trabalhos de docente e crítico literário, a sua poesia está expressa em livros como A Noção do Poema (1972), A Partilha dos Mitos (1982), A Condescendência do Ser (1988), Enumeração de Sombras (1989), Um Canto na Espessura do Tempo (1992), Meditação Sobre Ruínas (1994), O Movimento do Mundo (1996). Recebeu o prémio da Associação Portuguesa de Escritores em 1994, o Prémio Literário Fernando Namora, pelo romance O Anjo da Tempestade (2004), e o Prémio Cesário Verde “Consagração”, pela obra O Estado dos Campos (2003), e o Prémio Nacional de Poesia Ramos Rosa. Em 2007.

Em entrevistas divulgadas, assinala a sua admiração pelas “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, que considera um livro aberto, é ficção, memória, correspondência, todos os géneros misturados, e “ livro com um pensamento que reflete a sociedade portuguesa da época em aspetos que não desapareceram”; refere também a lírica de Camões, porque “está  lá tudo” , e Os Lusíadas, cuja leitura lhe terá feito perceber muita coisa, dado o complexo de saberes que engloba.

Era bom recordar algumas palavras da poesia de Nuno Júdice, que mostram o seu estilo e o seu universo de conceitos:

… a vida que traz consigo as emoções e os acasos,/ a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram/e dos encontros que sempre se soube que/ se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com /quem e onde, nem quando; /essa vida que leva/ consigo/ o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,/sob a luz indecisa que apenas mostra /as paredes nuas, de manchas húmidas/ no gesso da memória;// a vida feita dos seus/ corpos obscuros e das suas palavras/ próximas. (Em “Teoria Geral do Sentimento”)

As edições de Os Lusíadas

As referências produzidas sobre a edição dos Lusíadas, levaram-me e tentar lembrar a publicação de uma “Homenaje a Camoens, Estudios e Ensayos hispano –portugueses”, pela Universidade de Granada em 1980, com que aquela Universidade celebrou o quarto centenário da publicação de Os Lusíadas.

Em artigo recente (justamente em12 de março de 2024), o diário Público titulava, pela pena de Luís Miguel Queirós, “O editor do século XVI que fez uma impressão pirata d’Os Lusíadas”, referindo estudos em desenvolvimento por Rita Marnoto, para celebrar os 500 anos do nascimento do épico, em que tem vindo a verificar que da primeira  edição de 1572, um outro editor teria elaborado o que é chamado uma “edição pirata”, modificando algumas passagens do poema. Estudo certamente interessante, cuja análise outros investigadores procuram verificar. A verificação nasce não apenas do texto, mas também da análise do papel utilizado.

Recordo ter escrito naquela Homenaje, uma referência a esse facto, a partir da análise a vários textos de Aquilino Ribeiro, em que aborda esse mesmo problema, embora por prisma diferente e não considerando a hipótese da tal “impressão pirata”.

O investigador francês Roger Bismut (1918-2001), que nessa homenagem assina também um estudo sobre os textos referentes a Inês de Castro, defendia que “A edição E e a Edição Ee são duas edições distintas, sendo a edição Ee a original”, ao contrário de Aquilino que propõe o contrário.

De uma análise breve das obras de Aquilino dedicadas a Camões, particularmente Luís de Camões. Fabuloso. Verdadeiro e Camões, Camilo, Eça e alguns mais, concluíamos:

“A Aquilino o mérito de desmistificar (no sentido pleno da abordar, discutir e destruir os mitos aceites) muito da vida de Camões. No entanto fica-nos a impressão de que a própria confissão do épico “Não me falta na vida honesto estudo/ Com longa experiência misturado/

Nem engenho que aqui vereis presente /Coisas que juntas se acham raramente” (canto X, 154), exigiria a Aquilino uma maior atenção ao honesto estudo, e mesmo ao engenho. Com efeito, se é dissecada a longa experiência, não se vê como um Camões pícaro, vivedor e folgazão pudesse compaginar isso com um estudo permanente que justifique a monumental erudição que patenteia na sua obra, o seu sentido moral e crítico que surge a cada passo dos Lusíadas e da lírica, coisas que exigem por força estudos sistemáticos que não podem ser só os hipotéticos da juventude escolar. As referências de Diogo do Couto ao Parnaso de Luis de Camões [trabalho perdido] que ele ia escrevendo, e à erudição doutrina e filosofia que manifesta, falam de um Camões com profundidade e disciplinados hábitos de estudo, com gosto pelo saber e pela cultura, que supõem um homem com forte auto-domínio, capacidade de concentração e de afastamento da vida buliçosa e superficial dos escudeiros lisboetas ou da soldadesca da Índia, para além do talento, do engenho de que era superiormente dotado. Talvez grande falha, injusta e imerecida para o épico, do estudo, brilhante aliás, de Aquilino,  seja a de não ter feito ressaltar, como fez para muitos outros aspectos humanizantes da sua vida, esta faceta fundamental da existência de um homem superior, que “viveu pobre e miseravelmente, e assim morreu”, mas que entretanto deixou uma das mais brilhantes e grandiosas epopeias de toda a Humanidade.

Com recurso a tantos outros que estudaram e estudam a sua vida (há que lembrar Jorge de Sena!), oxalá que este ano centenário do nascimento, a celebrar ao longo de 2024 e 2025, traga mais contributos para o seu conhecimento, divulgação e apelo ao seu exemplo!