Da história da música para a liturgia: Domingo de Ramos

Foto: João Lopes Cardoso

Por Bruno Ferreira*

A liturgia do Domingo de Ramos, que abre a Semana Santa, é uma das mais queridas e evocativas de todo o ano litúrgico. A comemoração da entrada solene de Jesus em Jerusalém, rodeada pela festa das crianças e dos discípulos, é celebrada de forma envolvente e viva, com um espetáculo que se torna memorial e, ao mesmo tempo, convida toda a comunidade a sentir-se parte da ação litúrgica e ritual.

Excecionalmente, desta vez, oferecemos para audição um peça de Franz Schubert, que compôs uma série de Seis Antífonas para a Bênção dos Ramos no Domingo de Ramos D696.

Schubert (1797-1828) foi um dos maiores compositores do início do Romantismo, apesar de uma vida muito curta e infeliz. Vienense, Schubert afirmou-se durante a sua vida sobretudo como compositor de Lieder (peças curtas para voz e piano), e algumas das suas criações neste domínio permanecem obras-primas absolutas e inigualáveis na história da música.

Graças também ao seu constante e valioso trabalho neste domínio, Schubert dominou como poucos os segredos da voz humana, especialmente nas suas mais pequenas e refinadas nuances. Este conhecimento foi-lhe naturalmente também muito útil nas suas composições para coro e conjunto vocal, de que fazem parte as Seis Antífonas.

Schubert tinha uma relação complexa com a fé: católico, afastou-se gradualmente da prática religiosa e, talvez também devido à sua sensibilidade particular, tinha grande dificuldade em reconhecer-se nos dogmas e estruturas da religião organizada. No entanto, muitas das suas composições revelam uma omnipresente e penetrante saudade e nostalgia do infinito, e uma fé que talvez não se exprima como uma certeza sólida, mas sem dúvida como uma aspiração intensa e profunda. Das Seis Antífonas, apresentamos a primeira.

Schubert: Hosanna Filio David, D696/1

 

Latim:

 

Hosanna Filio David.

Benedictus qui venit

in nomine Domini.

O Rex Israel,

hosanna in excelsis.

 

 

Tradução portuguesa:

 

Hossana ao Filho de David.

Bendito o que vem

Em nome do Senhor.

Oh Rei de Israel:

Hossana nas Alturas!

 

A antífona Hosana Filio David é entoada durante a bênção dos ramos de oliveira e de palmeira, que normalmente se realiza no exterior da igreja antes da procissão. O texto é retirado da narração que os quatro evangelistas fazem da entrada de Jesus em Jerusalém.

O beve motete de Schubert (), para quatro vozes mistas (SATB), abre com todo o coro a proclamar solenemente, num ritmo cadenciado e poderoso, a saudação a Cristo, na tonalidade solarenga de Dó Maior. É um momento de triunfo e de homenagem à grandeza do Salvador.

Em contraste com tal grandiosidade, o “Benedictus qui venit” começa suavemente, depois abre-se tanto melodicamente (as vozes distanciam-se umas das outras) como dinamicamente (um grande crescendo), enquanto nas palavras “in nomine Domini” a música se dobra suavemente sobre si mesma, quase como se simbolizasse uma vénia reverente perante o nome de Deus.

A invocação a Cristo como “O Rex Israel” é novamente cantada numa dinâmica poderosa, com um estilo declamatório e grandioso; o último “Hosanna in excelsis“, que poderia ter sugerido ao compositor uma realização triunfal, é, em vez disso, certamente majestoso e régio, mas também cheio de confiante súplica, expressa pela bela melodia dos sopranos e pela refinada harmonização abaixo.

 *sacerdote e aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma