A Mãe de todas as Vigílias

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

A expressão é de Santo Agostinho que exortava os seus fiéis a participar alegremente nesta que é como que «a mãe de todas as santas vigílias» e na qual «vela todo o mundo» (Sermão 219). E no sermão 221 afirma que «A vigília desta noite é tão importante, que só ela pode reivindicar como próprio o nome comum dado às outras vigílias»: mais do que uma vigília esta é «a vigília». Era assim na consciência e na prática da Igreja antiga e foi para voltar a ser assim que a Igreja no século XX empreendeu a reforma litúrgica: já lá vão 73 anos desde que Pio XII «restaurou» esta obra prima do património ativo eclesial, primeiro permitindo que ela voltasse a ser celebrada em horas noturnas (Decreto de 9 de fevereiro de 1951) e, depois, tornando obrigatória essa prática (Decreto Maxima redemptionis mysteria de 16 de novembro de 1955). Neste ponto, a reforma decretada pelo II Concílio do Vaticano e promulgada por Paulo VI, situou-se na esteira da grande Tradição, dando continuidade à reforma de Pio XII. Não podemos voltar atrás, reduzindo a mais importante celebração de todo o ano litúrgico a uma mera «missa vespertina» «pré-festiva», como acontece em cada sábado. É, por isso, que a norma que se lê na rubrica do Missal Romano é de interpretação estrita: «Toda a celebração da Vigília Pascal deve realizar-se de noite, isto é, não se pode iniciar antes do anoitecer do Sábado e deve terminar antes do amanhecer do Domingo» (MR, 2021, pág. 311, rubrica n. 3).

A Liturgia desta noite santa ordena-se em quatro partes, todas de suma importância. A primeira consiste no solene Lucernário. A Luz é aqui o grande símbolo a evidenciar. A noite é de lua cheia (a Páscoa é sempre no domingo  que ocorre após a primeira lua cheia da Primavera). Com as luzes da Igreja apagadas, a celebração começa, fora da igreja ou à porta da mesma, com a bênção do «lume novo» do qual se acenderá o círio pascal, preparado para simbolizar o próprio Cristo e difundir a Sua Luz. A entrada da comunidade na Igreja é guiada por esta coluna de luz: «A Luz de Cristo» – como canta por 3 vezes o portador do círio pascal. Do lume do círio se acendem as velas dos fiéis. E já com a Igreja iluminada – mas ainda não o altar – canta-se o precónio pascal que proclama o privilégio singular desta noite ditosa.

Passa-se, então, à segunda parte, a mais longa, em que o «ver» cede a primazia ao «ouvir»: a Liturgia da Palavra. O Lecionário atual propõe 7 leituras do AT e duas do NT. Por motivos de ordem pastoral pode reduzir-se o número das leituras do AT até um mínimo de 3, sendo obrigatória a terceira das previstas: a leitura do cap. 14 do Êxodo (relato da passagem do Mar Vermelho). Na hipótese mais abreviada teremos, portanto, 5 leituras: 3 do AT e 2 do NT. Mas não nos deveríamos contentar com os «mínimos». O ritmo desta Liturgia da Palavra vive da sequência Leitura – Canto (Salmo ou Cântico bíblico) – Oração. Nesta Liturgia da Palavra dá-se relevo à passagem do Antigo ao Novo Testamento com o canto do hino Glória a Deus nas alturas, entoado por entre o retinir dos sinos, enquanto se acendem as luzes do altar; antes do Evangelho também se valoriza o canto do Aleluia – vem-se de um jejum de 40 dias… – excecionalmente atribuído (se for possível) ao próprio sacerdote que preside à Vigília.

Vem depois a Liturgia batismal: chamada dos catecúmenos, canto das ladainhas com procissão para o Batistério, bênção da água batismal (ou da água lustral, se não houver Batismos), renunciação e profissão de fé dos Catecúmenos, Batismo, ritos explicativos pós-batismais, sacramento da Confirmação, já no presbitério, dos neófitos não infantes, renovação das promessas batismais por parte de todos os fiéis, concluindo-se esta parte com o rito da aspersão do povo com a água benzida nessa mesma noite. A água é o grande símbolo desta 3ª parte.

Segue-se, por fim, a quarta parte: a Liturgia Eucarística. É o ponto de chegada de toda a Vigília e de todo o Tríduo: com o Banquete Pascal da Eucaristia termina o jejum pascal e definitivamente se inaugura o tempo jubiloso em que o Ressuscitado está realmente presente no meio da Sua Igreja a saciá-la com os seus dons, a inebriá-la com o seu Espírito. O Missal – na sua edição mais recente – aconselha que, na Vigília, a comunhão se faça sob as duas espécies. Assim se lê na rubrica: «É conveniente que os neófitos recebam a sagrada Comunhão sob as duas espécies, juntamente com os padrinhos, madrinhas, pais e esposos católicos, bem como os catequistas leigos. Convém também que, com o consentimento do bispo diocesano, onde as circunstâncias o aconselham, todos os fiéis sejam admitidos à sagrada Comunhão sob as duas espécies» (MR 2021, p. 351, n. 65).