O Cinema visto pela Teologia (104): “A Terra Prometida”

Uma leitura do filme “A Terra Prometida​​

Por Alexandre Freire Duarte

Jutlândia, meados de setecentos. Uma carapaça de varão, entre o desespero do vazio inclemente e o êxtase do encontro com o que mais necessita, face ao caos do mal e a sua maldade e couraças que acabam vergadas pelo amor. Eis os elementos para uma intrépida, impressiva, tormentosa e atormentadora história épica que logra ser eficaz, vibrante e com mudanças astutas e orgânicas. Bastarden” é, por isso, uma aventura dramática de cunho clássico, mas com uma mistura de arrojo e emoções imprevistas.

Mikkelsen (estoico, intenso, forte enquanto vulnerável) é a fria âncora sedutora deste filme, mesmo quando é só quase o seu rosto talhado a “falar”. Bennebjerg (patético e maníaco, mas credível) é o oposto fiel a Mikkelsen. Todavia, é Collin (crescentemente visível, feminina e forte) que dá a graça ao filme, acabando quase a dominá-lo. Com eles, os cenários, a música nada sutil, as caracterizações e, enfim, a fotografia (oscilando entre os beijes, cinzentos e castanhos das charnecas de urze árida que contrastam com os dourados e vermelhos das casas nobres) ajudam a um belo e consistente entretenimento.

Apesar dos arranjos de 1Cr., a Bíblia, em 1Sm. e 2 Sm., é hesitante quanto a quem matou Golias. Neste filme temos outro encontro entre desiguais que teologicamente nos aponta para o drama entre o ideal quimérico que pode cegar e o real inclemente que nos desperta. Não é por acaso que Jesus deixa bem claro que só a luz ténue do amor e da esperança permitem, ainda que só de soslaio, que se veja o pecado e o desespero. E isto, numa espécie de morte em que o Pai já acolhe e abençoa cada um de nós como Seu filho.

A vida ocorre ser, demasiadas vezes, caótica e dolorosa para a isso se acrescentar a dúvida acerca dos nossos propósitos (que não deveriam ser senão reflexos da meta do nosso viver, que é Deus-Amor) quando não temos mais nada do que apeteceres repletos de ambições. Mas mesmo desse caos e dessa dor algo de belo pode surgir quando aqueles reflexos surgem e são vividos com convicção erguida no amor, ainda que isso jamais fique pleno nesta Terra – veraz cultivo para nos familiarizarmos com a “Casa do Rei”.

Doloroso foi ver, mais uma vez, como quem não é pobre despreza e maltrata, até à crueldade extrema, quem o é. Qual a razão deste intemporal repúdio que levou a Pobreza à morte? Será que é porque sabemos que o pobre, devido a Deus ser Amor, nos mostra, pede e até exige que sejamos de uma determinada forma que, ao não os podermos trair e abandonar, nos abomina? Mas recordemos que cada pobre é uma vida já lotada de amor divino que, porém, lhe pode escapar se não os estimarmos e servirmos como Jesus.

Andamos tresmalhados devido aos valores mundanos que nos fazem ficar com as mãos frias de crueldade e os corações atrozmente gélidos de morte (por mais que essas mãos e corações nos coloquem a arder). Fugimos de Cristo e, assim, de toda a “terra prometida”, que o é, não pelo solo, mas pelo que ele permite: podermos viver com todos a quem não permitimos que se sintam: filhos “bastardos” de Deus e irremediavelmente desvalorizados sob o peso de uma (inexistente) predeterminação a essa cruel condição.

Quando damos por certo qualquer decisão ou projeto que não leve em consideração os mais carentes, estejamos certos que não os realizaremos com Deus, nem com o amor cristão – aquele que não só se explica (dado que isso é necessário), como faz ver bem.

(Dinamarca, Alemanha, Suécia; 2023; dirigido por Nikolaj Arcel; com Mads Mikkelsen, Simon Bennebjerg, Amanda Collin e Kristine Kujath Thorp e Melina Hagberg)