“Esta é a minha mãe”

Por João Alves Dias

Assim começava a mensagem (5/3/2024). E continuava: “Mulher guerreira que no tempo em que as mulheres comiam e calavam, ela não se calou.

Lutou contra tudo e contra todos mesmo contra ela própria, quando necessário.

Fiel aos seus valores e às suas crenças, educou dois filhos no amor, humildade, caridade e disponibilidade aos outros, seguindo o seu exemplo.

Catequista, ministra extraordinária da Comunhão, leitora, membro da Cáritas (e da Conferência Vicentina de Campanhã), do CPM, do (grupo de) jovens; uma vida dedicada aos outros e a espalhar a palavra de Deus. (…)

Quis o Pai chamá-la para junto de si durante o dia de hoje.

Que Ele me permita continuar a transmitir a sua palavra, o seu exemplo” (Miguel, facebook, 4/3/2024).

Vem de longe a minha admiração por esta cristã comprometida, sempre pronta a servir. Com um sorriso carinhoso e uma palavra amiga…

Quando o mal que a viria a vitimar se manifestou, o casal Barbeira coordenava os encontros mensais de formação litúrgica da paróquia de Campanhã que eu, a seu pedido, apoiava.

Foi uma doença longa e penosa que a obrigou a frequentes internamentos hospitalares, mas não a fez desfalecer na Fé, como confessou na sua última mensagem:

“Olá Amigos, sei que têm sentido a falta das minhas mensagens e até dos meus posters. Efectivamente, a minha doença piorou e estou internada nos cuidados paliativos do IPO.

Atenção: fui eu que fiquei internada, não a FÉ nem a Esperança. As suas luzes continuam a incentivar para lutar pela Vida, o Dom maravilhoso que Deus nos deu.” (Maria Manuela, facebook, 26/2/2024)

Da sua presença diária no facebook, selecionei dois dos últimos textos em que sobressai o seu estado de alma.

  • “Partilhando…CARPE DIEM!

De há 6 anos para cá eu procuro viver a minha vida de uma forma mais tranquila, um dia de cada vez e nada mais, até mesmo porque, não sei quando não haverá algo mais…

É difícil viver com este diagnóstico, existe uma angústia constante, medo… muito medo…

Mesmo quando me disseram, ao fim de 5 anos, que o cancro estava em remissão o risco continua a existir. A doença voltou, bem mais forte, por isso é preciso encarar o problema e viver um dia de cada vez! A verdade é que começamos a aproveitar melhor a vida.

E existe em mim uma Força, a que chamo FÉ, que não me deixa desistir. Como uma vez me disseram, tu tens a doença, mas não tens de estar doente. Um dia de cada vez! Carpe Diem!” (15/2)

  • “Para Deus nada é impossível – Lucas 1.37.

Olá… todos temos direito a uma segunda opinião e nesta expectativa os meus filhos quiseram ouvir outra opinião, agora em Lisboa.

Nada de novo… parece não haver mais tratamentos, o linfoma é resistente a qualquer tipo de quínio.

E agora???

Restam os cuidados possíveis para ter alguma qualidade de vida.

Partilho isto com vocês meus amigos… como partilhei as alegrias…

Como estou??? Não sei… umas vezes, calma, outras, revoltada, mas pedindo a Deus a serenidade para aceitar.

Continuo a lutar para viver o melhor possível o tempo que me resta. “(21/2)

E, no meio deste sofrimento, não esquecia os aniversários dos amigos:

”Parabéns, (…) muita saúde e felicidades junto daqueles que o amam. Abraços Francisco, Manela e Miguel.” (18/2)

Nem os tempos litúrgicos:

“Olá… Boa tarde. Hoje, quarta-feira de cinzas, começa a quaresma. Quarenta dias até à Páscoa. Que o Senhor nos ajude a chegar à SUA Ressurreição.” (14/2)

E, ainda, nos deixava belos testemunhos de fé:

“O que é viver com Fé a minha expectativa?

Viver da Fé é confiar em Deus, não importando as situações, as aflições e tribulações.

A Fé é o que mantém o ser humano firme mesmo nas circunstâncias mais negativas. (…) Viver com Fé na sua vida é um abrigo forte nos piores dias de tribulação.” (8/2)

Vós sois a luz do mundo… Não se acende uma luz e se coloca debaixo do alqueire, mas no candelabro.” (Mt, 5, 14)

Quem quiser ver melhor esta ‘luz’, pode ir ao facebook e pesquisar: Maria Manuela Grade Barbeira.

“Quem encontrará a mulher forte? Ela é mais preciosa que as pérolas.” (Prov. XXXI, 10)

Escrito em Dia da Mulher, o meu texto é ação de graças a Deus por esta ‘mulher forte’ e, nela, homenagem a todas as mulheres, “meia humanidade quiçá a mais importante”, como escreveu, já no século XIX, o ‘nosso’ Venerável D. António Barroso.