O Cinema visto pela Teologia (103): “A Sala de Professores”

Uma leitura do filme “A Sala de Professores

Por Alexandre Freire Duarte

Filmes sobre professores há muitos e muito bons, talvez por a vida de um docente propiciar situações universais com que gostariam de se identificar aqueles que estudam ou lecionam. Com esta obra estamos no nível superior da qualidade. Trata-se de uma compacta, invulgar e opressiva metáfora social e política que nos agarra poupada e ironicamente pela sua trama de suspense psicológico e moral em catadupa. Um filme, pois, para quem tem “nervos firmes” e uma séria disposição para pensar acerca do visto.

Sim: Benesch é muito ajudada por uma série de outros atores de categoria; um “encaixotar” sufocante que impede panorâmicas alargadas do patenteado e de onde, às vezes, vêm sons ominosos; uma minimalista banda sonora desconcertante; cenários frios e impessoais; e movimentos de câmara elegantes que, a par dos fortes cortes editoriais, são desorientandores. Dito isto, Benesch está para além do soberbo no seu papel (às vezes soante apenas pelos seus olhos) de alguém frágil, furioso, compassivo e estirado.

Como cristãos e, por isso, pessoas chamadas a viverem com o coração aberto como o sepulcro para hospedarmos a quem servimos, sabemos que deixaremos um vinco no Mundo. Vinco, fruto do negarmos essas realidades e acabarmos a aderir ao instinto de rebanho que nos serve opiniões enlatadas que instilam a consonância apática diante da censura, corrupção e insanidade alargadas que parecem crescer ao nosso redor. Ou vinco, por aceitarmos essas três atitudes feitas hábitos amorosos em quem quer ser mais humano, dizendo “sim” ao subir numa liberdade que é a nossa semelhança com Deus.

O Mundo nunca foi a preto e branco exceto, quiçá, na Cruz. Mas para quem deseja ser luz (na Luz) do Mundo, geralmente as consequências nefastas espiralam, desde as primeiras vivências de institucionalização (nas creches) às porventura últimas (nos hospitais), passando pelas intermédias (escolas e lugares de trabalho). A ambivalência medra em nós e a lógica do “estar quieto e calado” torna-se sedutora, aceite e vivida de modo padronizado. Mas isto não nos trará paz, pois Deus não é antiquado, nem fã dos “preceitos”, antes adepto do amor do Tabor que desvela o Seu sonho: sermos humanos.

Aquele amor que transfigura os nossos olhos para, enfim, vermos a realidade tal como ela é e aceitarmos ir à busca da 100.ª ovelha – a que mais estorvo nos causa. Não há a antes dita vida no sonho divino se formos movidos nas diversas circunstâncias (que não são maquetes ou laboratórios do Mundo Real, mas este mesmo Mundo) por outras realidades além do amor que consuma a liberdade. Eis a razão de Jesus não dar ordens, antes recomendar (sempre com uma infinita discrição). Afora isso, surgem as suspeições, as desconfianças, as críticas e as difamações acerca até de quem apenas pediu ajuda – no que gera mágoa ante o absurdo das relações neste mundo de redes sociais antissociais.

“Ser ou não ser” já não é a questão. Somos obrigados a ser uma peça num instável, desonesto e desumanizador “castelo de cartas” estrutural que, a seu tempo, aluirá em cadeia. E isto porque, se há quem queira sepultar o amor no frio, este amor jamais ficará no sepulcro, antes mostrará, com abalo para os nossos “egos”, que a beleza da retidão é o resultado, normal e sempre possível, da união de ânimos na verdade e no amor. Não – admito – pela razão, mas sempre com razões, mormente no aceitar viver a vida na Vida.

(Alemanha; 2023; dirigido por Ilker Çatak; com Leonie Benesch, Leonard Stettnisch, Eva Löbau, Michael Klammer e Anne-Kathrin Gummich)