Horas da celebração anual da Páscoa

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Estão a chegar os dias da Páscoa, a celebração principal dos mistérios da nossa salvação. No centro da solenidade está o Tríduo sagrado da morte, sepultura e ressurreição de Jesus (Sexta‑Feira Santa, Sábado Santo e Domingo da Ressurreição). Um dos problemas que frequentemente se colocam é o das horas das principais celebrações. A proposta da Igreja admite alguma flexibilidade. Vejamos por ordem:

Missa da Ceia do Senhor

Até à «restauração da Semana Santa», com Pio XII (Decreto Maxima redemptionis mysteria de 16 de novembro de 1955), esta celebração tinha lugar às primeiras horas da manhã de Quinta-Feira Santa. Sendo dia laboral, a afluência dos fiéis era diminuta. Como devolver a celebração ao seu horário próprio com a disciplina então vigente do jejum eucarístico que obrigava desde a meia-noite do dia anterior e era tão rigorosa que nem sequer permitia a ingestão de água? Pio XII, em 6 de janeiro de 1953 suavizou a disciplina do jejum eucarístico (Const. ap. Christus Dominus) e permitiu a celebração de missas vespertinas, com 3 horas apenas de jejum eucarístico antes da comunhão. Foi esse o pressuposto para que a partir de 1956 a Missa in Cena Domini fosse reposta para horas vespertinas, no horário mais oportuno, entre as 17 e as 20 h (Decreto Maxima II 7). Em 1957, a Congregação dos Ritos alargou o intervalo de tempo: entre as 16h e as 21h (Ordinationes, 1 de fev. 1957, 8). Esta rubrica manteve-se no Missal Romano de 1962. O MR reformado por Paulo VI não dá qualquer indicação horária, limitando-se a indicar que a celebração se faça «horis vespertinis, tempore magis opportuno», em horas vespertinas, no tempo mais oportuno. E recomenda a «plena participação de toda a comunidade local».

Permitimo-nos questionar a tradução portuguesa da rubrica, segundo a qual esta Eucaristia se celebra «à tarde». O latim (horis vespertinis») não implica essa restrição e, como se viu, já com Pio XII, em 1957, o horário previsto alargara-se até às 21h. Uma participação alargada dos fiéis, muitos dos quais sujeitos a horário laboral, pode não ser compatível com a opção da tarde. E o próprio titulo da solenidade – «In Cena Domini» – parece sugerir uma hora mais avançada sob pena da Missa «na Ceia do Senhor» mais parecer uma Missa na merenda… De forma mais congruente, o Missal Italiano fala em celebração «nelle ore serali», apontando para depois do entardecer.

Celebração da Paixão do Senhor

Também esta celebração fora antecipada para horas matinais e foi Pio XII quem a restaurou nas suas horas próprias. O Decreto de 1955 recomendava as 15h, mas, por razões pastorais, admitia que a celebração pudesse começar até às 18h (Maxima II 8). Em 1957, continuando a preferir-se as 15h, o leque horário das opções pastorais alargou-se das 12h às 21h (Ordinationes, 15) e assim ficou no MR 1962. O MR de Paulo VI é menos taxativo: «Na tarde deste dia, por volta das três horas – a não ser que razões de ordem pastoral aconselhem outra hora mais tardia». Note-se que a Carta Circular da CCDDS de 16 de janeiro de 1988 voltou à orientação horária de 1957: «Por razões pastorais pode escolher-se outra hora mais conveniente para que os fiéis mais facilmente se possam reunir: por exemplo, desde o meio-dia até ao entardecer, mas nunca depois das 21 horas» (n. 63). A «autoridade» aduzida em nota para a restrição é a das Ordinationes de 1957… O Diretório Litúrgico para 2024 mantém esta indicação. Contudo, a 3ª edição típica do MR, posterior à referida Carta Circular, manteve a redação de Paulo VI que, portanto, prevalece. Nada impede, por isso, que, por razões de ordem pastoral, esta ação litúrgica possa começar em hora mais tardia, como as 21:30 h. Pode ser uma opção válida para párocos com mais do que uma paróquia a seu cuidado. Mas a opção a privilegiar, em que a própria hora entra na composição global do sinal litúrgico, é a das 15h.

Vigília Pascal

A reposição da «verdade da hora» na celebração da Vigília Pascal foi feita, a título experimental por decreto de 9 de fevereiro de 1951. Então, a indicação era de que a Vigília começasse a uma hora em que o início da «Missa» (canto do Gloria) ocorresse pela meia noite. Manteve-se a mesma indicação aquando da restauração geral da Semana Santa mas, por razões de ordem pública ou de utilidade pastoral foi permitido antecipar o início da Vigília Pascal para o crepúsculo, mas nunca antes do ocaso do sol (Decreto Maxima, II 9). Esta indicação foi acolhida no MR 1962. O MR de Paulo VI prescreve, de forma inequívoca: «Toda a celebração da Vigília Pascal deve realizar-se de noite, isto é, não se pode iniciar antes do anoitecer do Sábado e deve terminar antes do amanhecer do Domingo». A referida Carta Circular da CCDDS, de 1988, recordava, oportunamente: «Esta regra é de interpretação estrita. Qualquer abuso ou costume contrário que se tenha introduzido e que suponha a celebração da Vigília pascal à hora em que, habitualmente, se celebram as Missas vespertinas, é de reprovar (EM 28). As razões por vezes apresentadas para justificar a antecipação da Vigília pascal, por exemplo a insegurança pública, não são tidas em conta no caso da noite de Natal ou de reuniões de outro tipo» (n. 78).