Da história da música à liturgia: Domingo IV da Quaresma

Foto: João Lopes Cardoso

Harant: Qui confidunt in Domino

 

Latim:

 

Qui confidunt in Domino

Sicut mons Sion

Non commovebitur

In aeternum.

Qui habitat in Jerusalem

Montes in circuitu eius

Et Dominus in circuitu populi eius

Ex hoc nunc et usque in saeculum.

 

[Salmo 125 (124), 1-2]

 

 

Tradução portuguesa:

 

 

Os que confiam no Senhor
são como o monte Sião,
que não se pode abalar,
mas permanece para sempre.

Como os montes cercam Jerusalém,
assim o Senhor protege o seu povo,
desde agora e para sempre.

 

O quarto domingo da Quaresma é conhecido como domingo “Laetare“, a partir da primeira palavra do Introitus da sua liturgia, mas também em referência ao clima de alegria que o invade, na proximidade da Páscoa. De facto, à semelhança do penúltimo domingo do Advento, o domingo “Gaudete“, também aqui a aproximação da conclusão do tempo penitencial favorece uma atitude de alegria, que se reflete também na adoção de paramentos cor-de-rosa (para simbolizar o céu que se torna cor-de-rosa à medida que a aurora se aproxima e a noite termina) e no abrandamento das restrições penitenciais impostas à música litúrgica durante a Quaresma.

O Tractus para o domingo “Laetare” é o Qui confidunt in Domino, cujo texto vem do Salmo 125 (124): neste caso, a alegria típica deste domingo vem da afirmação da confiança em Deus, que não abandona quem o ama e o sustenta mesmo nas dificuldades.

Ouvimo-la na versão musical de Kryštof Harant (1564-1621), um nobre tcheco, viajante, humanista, soldado, escritor e compositor. Desde cedo se dedicou à composição, estudando em Innsbruck, na Áustria, mas também cultivou muitos outros interesses; escreveu um fascinante diário da sua peregrinação à Terra Santa (que teve lugar em 1598-9), mas mais tarde aderiu à Reforma Protestante (num contexto também muito carregado de implicações políticas), apoiando a revolta da Boémia contra a coroa dos Habsburgos. Derrotado, foi executado pelos vencedores.

O seu Qui confidunt (https://www.youtube.com/watch?v=VO1rdT7kG2w) é um belo motete para seis vozes (SSATTB), escrito na tradição da polifonia renascentista franco-flamenga, demonstrando de forma significativa a familiaridade do músico com esta linguagem e a fluência da sua inspiração melódica. Entre os muitos elementos a serem observados, destacamos a transição para o tempo ternário que ocorre na frase “non commovebitur“, e que parece representar simbolicamente o seu significado: embora haja uma mudança de andamento, a pulsação permanece estável, dando, de facto, uma impressão de maior solidez e segurança.

No regresso do tempo binário, encontramos uma bela representação da ideia dos montes  (“montes”), que, também visualmente, são representados na partitura com movimentos ascendentes e descendentes que dão a impressão da montanha; mais sugestivo ainda, pouco depois, é a repetição da palavra “in circuitu“, que cria verdadeiramente uma espiral entre as diferentes vozes, envolvendo como que num abraço contínuo as notas em torno das quais se desenrola.

*sacerdote e aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma